Jeniffer é uma jovem estudante que perde o pai em um acidente de serviço militar. Antes de morrer, seu
pai lhe confiou aos cuidados de seu comandante Ruan.
Ruan era um solteirão viajado e sem planos para o futuro até conhecer a filha do sargento de seu quartel. O homem deixou a sua jóia mais preciosa nas mãos de Ruan.
O amor que nasce é
arrebatador e mexe totalmente com o coração deste homem pela menina Jeniffer. Mas a garota nem imagina que esses são seus
sentimentos, pois ela está apaixonada por um amor virtual, que conheceu na internet.
Enquanto Ruan vive um romance morno com
Virgínia, Jeniffer conhece Daniel em uma sala de bate-papo.
Os dois mal percebem que não precisam ir tão longe para serem felizes. Porque o amor pode estar bem ali,
no quarto ao lado.
Acompanhe esse seriado virtual e participe! Ruan e Jenniffer vão narrar esta estória alternando um e
outro em cada capítulo. Jeni em letras rosas e Ruan em letras azuis. Divirta-se!
Este livro é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência.
____________________
Autora Li:
Olá! Leitores.
Depois do sucesso de "Um Coração em Guerra" , decidi continuar na mesma linha e escrever um romance agora cheio de aventuras e ação. Divirtam-se e deixem seus comentários, pois eles ajudam a fazer a estória!
Ana Carolina
"Estou amando o livro!Muito bom, porque tem horas que é hilário!"
Aninha
"Nossa!Emocionante isso aqui!Amando muito tudo isso!"
Deisinha
"Li, mais uma vez, você escreve muito beeeeeeemmmm!"
Gaúcha
"A tua estória tem conteúdo, tem cultura!"
Kaká
"Estou amando!"
Lucy
"And the Oscar goes to..."
Lu
"Ainn!Cada capítulo mais perfeito que o outro.Li, nunca nos deixe órfãs de suas estórias, hein?!"
Mah
Fico numa ansiedade para saber o final dessa história! Fora que a gente se identifica com tudo!"
Marga
"Parabéns por mais um livro muito bem escrito viu!"
Mariana
"Li...manda outro capítulo logo!"
Nathália
"Entrei na fila da ansiendade para os proximos capítulos!"
Nati
Poxa! Um só por dia é pouco, dá vontade de ter maratona desse seriado!"
Mell
"Está muito legal o livro li \o/ Você consegue descrever cada cena perfeitamente."
Mell*
"To adorandooooooooo!"
Paula
"Nossa!O coração acelerou... que tudo!"
Quel
"Quando leio isso me esqueço do mundo!Bom demais!"
Sarah
"Li, como sempre você arrasando, estou amando esse livro!"
Tita
"Vou pra outro mundo quando leio esse livro. E, às vezes, dá vontade de estar nele.Hoje, eu tive prova de manhã. Aí, numa questão eu empaquei e fiquei parada pensando, girando a borracha... De repente, eu me liguei e tava discutindo mentalmente algum assunto da estória do Ruan e da Jeni! Como que pode? Essa estória é muito legal mesmo!"
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01/12/07
Trailer do Seriado
(Para ouvir a música, clique no alto-falante)
Para ler este livro do início, acesse os "arquivos de capítulos", no menu aqui ao lado. ------> Comece clicando no mês de "Agosto de 2007"; Você encontrará os capítulos em ordem decrescente na página que se abrirá, por isso, role a barra de rolagem para baixo e inicie pelo capítulo 1; A leitura será feita, assim: de baixo para cima. Após acabar de ler a página com os capítulos do mês de "Maio", acesse o mês de "Junho" no arquivo e assim por diante.
31/10/07
Final: A vida se renova (Ruan)
Peguei-lhe pela mão minúscula e caminhamos sobre a relva verde do jardim. Eu gostava de dedicar o meu tempo após o trabalho ao meu filho. Esses momentos não tinham preço para mim. Fazia uma tarde bonita de céu alaranjado e azul escuro se preparando para anoitecer. Eu procurava mostrar ao meu pequeno a importância do contato com a natureza. Não queria que ele só tivesse a referência da cidade. Pelo contrário, estava tendo uma infância saldável e tranqüila e crescia com uma energia que me dava cada vez mais forças para acompanhá-lo. Igor tinha a curiosidade inquieta e tudo apontava com o dedo indicador para me mostrar.
_É o passarinho. _ abaixei-me para ficar da altura dos seus olhos negros cintilantes. _ Ele está comendo uma minhoca. Você não vai gostar, blergt! _ fiz uma careta e ele riu.
_Passarinho? _ repetiu e levantou as sobrancelhas.
_É. Passarinho.
Igor tirou a mão apoiada no meu ombro e correu até o pobre animal que teve sorte de voar à tempo. Ri e balancei a cabeça para os lados.
_Vem cá seu moleque danado! _ peguei-o no colo e o suspendi no ar. Igor deu um gritinho de felicidade com a sensação da falta de gravidade.
Ele tinha o rosto eternizado de Jeniffer. Seus olhos e sorriso impressos. O cabelo liso de índio caindo-lhe na testa. Beijei sua bochecha rosada pelo sol e seus curtos bracinhos me envolveram.
_Ruan. _ ouvimos uma voz e Igor suspendeu o pescoço curioso.
Virei-me para o lado e vi caminhando para nós Elisa, com um vestido comprido esvoaçando pelo vento da tarde. Estava com um sorriso de quem não se surpreende por nos encontrar ali, passeando entre as árvores.
_Traz o menino para cá. _ fez um sinal com a mão para entrarmos. _ Ele deve estar com fome.
_Viu? _ falei para Igor, apontando para Elisa. _ Ela está brigando com a gente!
_Vem cá com a Elisa, vem meu lindo. _ ela esticou as mãos e Igor impulsionou o corpo para frente.
_Você é muito dado, hen, garoto! _ disse-lhe e deixei que fosse para o colo de Elisa.
_Nada! Ele está é com fome. Se deixar, brinca o dia todo. _ ela beijou-lhe a barriga provocando-lhe cócegas e risos.
Os dois seguirem mais à frente e eu caminhei devagar atrás com as mãos no bolso da calça jeans. Olhei a nossa casa em estilo colonial e sentei à varanda em uma larga cadeira de ferro de três lugares com assento de finas almofadas quadradas de espuma. O sol já começava a se pôr e os pássaros se escondiam nas árvores. Os grilos começavam seu coro noturno e alguns vaga-lumes preparavam suas pequenas fagulhas de luz para brilhar na bela noite.
Era um ritual sentar-me ali todas as noites e esperá-la chegar. Como também era um hábito levantar-me ao escutar o barulho do carro se aproximando na estrada. Sorri e me ergui em um pulo, fazendo as botas soarem sobre o assoalho de madeira da varanda com meus passos firmes e apressados. Caminhei pela trilha de pedras e abri o grande portão de madeira após o sinal das duas buzinadas. Afastei-me para o lado, permitindo a passagem. Os faróis iluminaram a frente da casa e depois se apagaram. Ela desligou o motor e fechou a porta com a chave, enquanto a outra mão punha a alça da bolsa no ombro. Virou o rosto para o lado e se deparou comigo de braços cruzados, admirando-a em seu jaleco branco e com o cabelo preso por um frouxo coque.
_ Ai, amor... _ soltou o ar dos pulmões e apoiou as duas mãos nos meus braços. _ ... estou tão cansada. Um plantão muito exaustivo, não vejo a hora de tomar um bom banho quente.
Segurei seu rosto, inclinei o meu para a esquerda e a beijei com carinho, sentindo seus lábios úmidos e quentes. Puxei-a pela cintura para colar seu corpo no meu. Recebi um afago na nuca e senti seus braços envolvendo meu pescoço. Seu cheiro inconfudível, o cabelo fino, o toque da pele. Tudo nela me trazia felicidade e alegria ao coração.
_Uau! _ ela recuperou o fôlego e afastou apenas a boca, mantendo ainda a testa colada à minha. _ A que devo essa recepção tão calorosa? _ riu baixinho e acariciou as minhas bochechas delicadamente com a ponto dos dedos, provou ainda um pouco mais de um breve beijo.
_Só uma saudade repentina! _abracei-a longamente de olhos fechados e a balancei para os lados como quem nina um bebê.
_Humm... E o que eu vou ganhar de plus com essa saudade repentina?
_Eu estava pensando em te mostrar... _ falei-lhe ao ouvido. _ Podemos começar por aqui... _ beijei-lhe o pescoço, provocando o seu riso. _ Eu te amo, Jeni.
_Eu também te amo, Ruan! Muito mesmo. _ salpicou-me de beijos rápidos pelo rosto.
_Mãe! _ ouvimos o grito de Igor.
Elisa que trazia o menino nos braços colocou-o no chão da varanda e Igor correu meio desajeitado pela grama. Tropeçou e caiu de joelhos.
Jeniffer soltou-me e inclinou-se para ajudá-lo.
_Isso, levanta para cair de novo! _ ela não se fez de compadecida por seu choro. _ Você é um homem forte, rapaz. _ limpou suas pequenas mãos sujas de terra e agachou-se na sua frente. _ Agora dá um beijo bem gostoso aqui na mamãe. _ Envolveu-o com os braços e colou seu rosto no dele. _ Que delícia! A vovó te deu banho, é? _olhou para Elisa de braços cruzados com um sorriso orgulho como o meu, admirando os dois também. _ Está tão cheiroso!
Jeni e Igor eram as jóias mais preciosas da minha vida. Ainda posso ouvir o médico há quatro anos me dizer:
_ Seu filho resistiu bem e está na encubadora.
E, logo em seguida:
_ E sua mulher é uma guerreira! Ela não vai te deixar trocar as fraudas sozinho.
Formamos uma família muito feliz e repleta de amigos, como aqueles que agora faziam um baita churrasco nos fundos da casa.
_Olha só... _ Fonseca, já meio alto pela cerveja, levantou-se. _ ... Finalmente chegou a única pessoa que trabalha duro nessa casa! _ brincou e apontou para Jeniffer.
Todos rimos. Envolvi Jeni e a abracei por trás, muito orgulhoso da mulher que tinha.
_Que isso? É um absurdo! _ eu fingi me surpreender. _ Aqui em casa, eu falo mais alto! Eu que mando, não é Jeni?! Ela fala: “Vem aqui agora!” e eu grito: “Sim, senhora!”
_Ele está tão engraçadinho, hoje! _ Jeniffer cerrou os olhos e deu-me um beijo de leve nos lábios. _Gente, eu vou tirar essa roupa de trabalho e tomar um banho. Preparem aí um bom prato de carne para mim!
_Pode deixar! _ Elisa prontificou-se. Estava desfiando um pedaço de frango para colocar na boca de Igor, sentado em cima de uma mesa.
Jeni entrou em casa e me perguntou se as malas na sala eram de sua mãe. Disse-lhe que já estava de saída, não poderia estender mais a estadia. Elisa viera nos visitar por uma semana para ver o neto e ficara hospedada conosco.
_É, ela vai voltar logo, mas quis esperar você chegar. _ comentei.
_Fiquei muito feliz de saber que a mamãe conseguiu um bom emprego e está namorando. _ comentou.
_Eu também. Ela mudou muito. Acho que todos merecem ser felizes como nós. _ acrescentei.
_E você não mudou nada... _ Jeni me puxou para o quarto e me abraçou. _ Continua o mesmo... _ falou-me ao ouvido confissões irreveláveis.
_Ah! É? _ suspendi as sobrancelhas. _ Vou mostrar como progredi nesse quesito.
Fechei a porta atrás de nós e a beijei.
_Ruaaan! _deu um gritinho entre risos.
Jeni era como falei desde o princípio: tinha um jeito desde menina de me atear fogo aos olhos, quando eu os punha sobre as ondas de seu corpo protuberante, fruta carnuda que balança faceira no pé, prontinha para cair, mas de maldade não cai. Era o melhor presente dado pela vida. As pessoas esperam achar alegria nas coisas, nas conquistas materiais ou no status social, quando, na verdade, a alegria está em nós e em quem amamos, é algo da ordem da alma.
_Está aí? _ achei-a sentada na varanda da frente de casa com Igor no colo, sugando seu seio.
Sentei-me ao seu lado, ainda podíamos ouvir a música abafada vindo dos fundos da casa.
_Esse menino já está muito grande e você não desmama ele! Quatro anos Jeni.
Ela levantou os olhos e virou o rosto para mim.
_E você tem 30 e tantos e também não cansou ainda...
Eu sorri e me senti envergonhado.
_É, não canso de nenhuma parte sua, nem um dedinho. _ beijei-lhe os lábios e passei meu braço por trás dela na cadeira.
Igor esticou a mão e puxou o cabelo de Jeni para chamar a atenção. Ela parou de me beijar e olhou para ele.
_Tá com ciúme da mamãe? _ fiz um carinho no nosso filho. _ Tem que saber dividir.
Jeni abaixou a blusa e ficou balançando-o para os lados para que dormisse. Não demorou muito para que fechasse os olhos.
_Sono pesado igual ao do pai. _ ela comparou, falando baixinho.
_Que injustiça!
_É verdade, injustiça. _ ela concordou. _ Mas ele não ronca. _ ponderou.
_Ah! Malvada.
_Sou, é? _ chegou seu rosto bem perto do meu.
_Mas eu te amo, minha linda. _ sussurrei.
_Eu também te amo, Ruan. _ beijou-me apaixonadamente.
Li Mendi
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As dores eram muito fortes e eu não conseguia raciocinar o que acontecia. Só via os enfermeiros me movendo de um lado para outro, um puxava um braço, o outro tirava a roupa. Eu só tinha consciência de que perdera sangue e alguma coisa não ia bem comigo porque começava a ficar fraca.
_Ruan... _ chamei-o e ele apareceu com seu rosto sorridente, segurando minha mão.
_Vai ficar tudo bem, minha linda.
_Ruan, eu não sei. Eu estou com medo.
_Não precisa sentir medo, estou com você sempre.
_Ruan, eu falo sério... _ recuperei o ar.
_Não fale nada, fique quietinha.
A maca começou a ser empurrada pelo corredor do hospital e eu fechei os olhos. Quando os abri novamente vi Ruan ao meu lado vestido de azul e com uma máscara. Não parava de segurar minha mão.
_Daqui a pouco tudo isso vai passar. _ transmitiu-me esperança.
Os médicos pareciam muito agitados ao meu redor, trocando perguntas e respostas quase codificadas.
_Eu te amo... _ sorri-lhe.
_Eu também, Jeni.
_Você vai cuidar do nosso filho, não vai?
_Nós vamos.
_Ruan, não seja duro com ele.
_Pare de falar assim, te pedi isso uma vez... _ ele aproximou seu rosto do meu e limpou a lágrima que corria dos meus olhos.
_Você foi um príncipe encantado. O capitão Ruan!_ ri.
_Nosso Igor já está para chegar. Não fecha os olhos, meu amor. _ pediu.
Senti que estava mais fraca e os enfermeiros afastaram Ruan para poderem ter mais espaço.
_Não, Jeni! Jeniiii!
Meus olhos pesaram com mais força. Consegui ver a imagem já embaçada do rosto de Ruan e depois tudo se esfumaçou e veio o silêncio pleno.
*******
Minha mãe me recebeu na sala de espera com um abraço. Eu não disse nada, só agarrei-lhe com força.
_O que está havendo, Ruan?
_Eles acharam melhor eu não ficar lá.
_Como ela está? _ perguntou.
_Está muito fraca. Não sei se vão conseguir salvar os dois.
_... _ minha mãe não disse nada, também estava emocionada, mas manteve seu rosto duro e impassível. _ Ruan, acredite, não pode deixar de acreditar até o último segundo.
_Onde está a minha filha? _ Elisa apareceu.
_Está na sala de cirurgia. _ informei-lhe.
_Ruan, pela sua cara não está nada bem.
_Não está.
_Ai, Meu Deus! _ ela levou as mãos à boca.
O médico aproximou-se de nós horas depois e eu quase o agarrei de tanta ansiedade para que dissesse o mais rápido possível a notícia.
_Como estão? Os dois estão bem?
_Seu filho... resistiu bem e está na encubadora.
Meu coração parou por alguns segundos. Fechei os olhos e perdi o ar.
Li Mendi
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Cap 63: Tudo de volta ao normal... ou quase tudo (Ruan)
Atendi o telefone celular. Minha mãe sabia que não deveria ligar para o meu trabalho se a coisa não fosse realmente urgente.
_Oi. Fala.
_Ruan, a Jeni não me parece muito bem.
_O que houve?
_Ela achou aquela caixa no armário e perguntou o que era.
A caixa com a arma!
_O que a senhora falou para ela?
_Eu contei que você guardava a arma ali e não sei o que deu nela, saiu da cozinha e foi para o quarto. Começou a revirar as gavetas, o computador, tudo...
_Ela deve ter se lembrado.
_Pode ser, não quis me responder, me pediu para deixa-la sozinha.
_Mãe, eu daqui a pouco chego aí... _ olhei o relógio no pulso. _ O expediente não vai demorar muito para acabar.
_Ei, espere, ela entrou no banheiro. Pelo barulho do chuveiro, está tomando banho.
_Não faz nada. Deixe ela quieta que eu vou sair daqui voando.
_Tudo bem. Eu só fiquei preocupada com o bebê, ela não pode ficar nervosa.
_Não pode mesmo! _ concordei e desliguei o telefone.
Se alguma coisa tinha disparado a memória de Jeni, ela certamente devia estar em parafuso. Preparei-me para o pior e cheguei em casa afoito, com o coração na mão de tanta preocupação. Estava também um pouco inseguro de que não ficássemos bem. Ela tinha um humor tão oscilante que nada me surpreendia mais.
Encontrei minha mãe vendo a novela das sete, quando abri a porta da sala.
_Cadê a Jeni? _ deixei a pasta e as chaves do carro na mesa.
_Está lá na varanda dos fundos, sentada.
Eu caminhei pelo corredor, atravessei a cozinha e parei na soleira da porta. Podia vê-la dali na cadeira de balanço feita de fibras de plástico entrelaçadas. Ela gostava de ficar nela desde que a compramos em uma feira. A luz fraca e amarelada da varanda, junto com a quietude e o silêncio da noite só irrompido por um grilo escondido em algum lugar próximo formavam um cenário de quadro antigo, rupestre.
_Jeni? _chamei-a.
Ela assustou-se e virou o rosto para trás, tinha o cabelo molhado e estava com um vestido branco de alças comprido.
_Ruan. _ ela levantou-se e sorriu.
Não entendi nada, pensei que a encontraria em prantos e estava com um brilho diferente nos olhos. Eles cintilavam de emoção, mas uma emoção feliz, exultante.
Correu para mim e me abraçou. Eu, inteiro, era um ponto de interrogação. Afastei seu rosto do meu peito para verificá-lo melhor.
_Eu te amo. _ disse-me. _ Eu te amo. _ sorriu. _ Eu te amo muito. _ repetiu rindo alto e segurando meu rosto com as duas mãos como se há muito tempo não me visse.
_Você lembrou do que faltava.
_Lembrei. _ fez um sinal positivo com a cabeça.
_Jeni, é você agora, completa. _ ri também, me sentindo um bobo, mas um bobo feliz. _ Eu também te amo! _ beijei-a com vontade.
_Ruan, eu te amo duplamente agora por tudo que fez por mim. Me desculpe por não ter lembrado, me desculpe quando te disse que não gostava de você, era mentira...
_Não diz nada. _ silenciei sua boca com meu polegar. _ Não importa, não era verdade, eu sabia. Vem comigo... _ puxei-a pela mão até a sala e chamei minha mãe.
_Que foi?
_Ela se lembrou de tudo, mãe! _ contei-lhe para que não ficasse tão aflita quanto estava ao me ligar. _ Agora é a minha Jeni. _ abracei minha linda garota por trás e beijei-lhe os lábios quando virou o rosto para mim.
_Vocês dois vão ser muito felizes ainda. _ minha mãe tocou no meu queixo e no da Jeni.
_Sempre fomos. _ Jeni disse. _Desde que conheci seu filho maravilhoso que sou feliz. _ ela pôs suas mãos sobre os meus braços que envolviam sua barriga.
_Viu como eu sou ótimo, mãe?
_Não ligue, Jeni, ele é um convencido. _ minha mãe balançou a cabeça para os lados e foi para a cozinha com a desculpa de que ia esquentar o jantar, mas sei que era para me deixar a sós com Jeni.
_Eu quero aproveitar tudo ao seu lado. _ Jeni virou-se de frente para mim e acariciou meu rosto e meu cabelo, sentindo-me pelo tato, queria tocar nos braços, nos ombros para acreditar que era ainda tão real quando o tempo parara na sua memória.
_Eu vou tomar um banho. _ disse-lhe ao ouvido. _ Depois comer alguma coisa porque estou com uma fome de leão e...
Ela riu antes mesmo que eu pudesse terminar.
_... depois o leão aqui vai querer ser muito bem cuidado.
_Tá bom, vai lá leãozinho. _ ela riu.
Eu me enfiei debaixo do chuveiro e me senti exultante de felicidade. Mal podia esperar para curtir o resto da noite ao lado da minha linda e maravilhosa mulher.
_Ruan! _ ouvi um grito aflito de Jeni.
Fechei o chuveiro para parar o barulho da água caindo. Senti os pingos escorrendo pelo meu rosto.
_Ruan! Ruan! _ era a voz da minha mãe agora, surrando a porta. _ A Jeni...
Eu abri a porta do box e me enrolei na toalha assustado.
_O que está acontecendo? _ falei antes de virar a maçaneta da porta.
Li Mendi
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As pessoas que se consideram importantes para a nossa história exigem que, no mínimo, lembremos delas. Negar-lhes isso é o maior desapontamento que se pode oferecer.
_Como não se lembra de mim, Jeni? A Priscila, sua amiga desde que chegou aqui, passamos tantas coisas juntas e...
Eu fechei a porta de casa e respirei fundo. Indiquei o sofá para que ela se sentasse.
_Me desculpe por eu não ter vindo antes, tive que viajar. Eu fui te visitar no hospital, mas você estava desacordada. Você não pense que eu me esqueci de você, de modo algum, eu...
_Priscila, está tudo bem. _ segurei sua mão. _ Eu não estou pensando nada. Na verdade, eu só quero não me sentir pressionada.
_Claro, desculpe... _ ela fechou os olhos e franziu a testa, percebendo que estava justamente fazendo isso. _ Com o tempo vai vir tudo à tona. Sem pressões. _ ela parou de falar e deu uma risada nervosa. Respirou profundamente suspendendo os ombros e depois os soltou sobre o peso do corpo. _ E como está tudo por aqui? E você e o Ruan? _ balançou meu braço com ar de excitação.
Eu fiquei sem saber o que falar. Ela me considerava, pelo visto, sua amiga mais íntima, enquanto eu parecia só conhecê-la por questão de minutos desde que entrara por aquela porta.
_Bem, bem. _ respondi.
_Bem? _ ela repetiu e me olhou longamente. _ Só tem isso a me dizer?
_Eu estou lembrando aos poucos... _ coloquei as mãos sobre os joelhos e depois estalei os dedos.
_Conta mais em detalhes, boba! _ deu-me um leve empurrão. _Vocês dois já...
_... _ abaixei a cabeça e ri, timidamente.
_Uau! _ bateu palmas. _ Que ótimo!
Balancei a cabeça para os lados constrangida.
_Foi ótimo. _ disse-lhe.
_Fico feliz por você. Todos vimos como o Ruan ficou maluco. Coitado, dava dó.
_Ele é muito legal. Ontem...
_Continue.
Eu parei para pensar por que tive o impulso de dizer-lhe aquela confissão, mas deixei a razão de lado.
_Ontem, eu lembrei de muitas cenas nossas e, quando ele me beijou, eu esqueci de tudo, parecia estarmos juntos desde sempre.
_Que lindo! _ exclamou, enfaticamente, como a maior torcedora da minha felicidade.
A campainha tocou e eu pedi licença para atender.
_Claro! Vai lá. _ disse ela.
Levantei-me e abri a porta.
_Oi, minha filha! _ Elisa salpicou dois beijos molhados nas minhas bochechas.
_Oi. _ sorri-lhe, respeitosamente, mas sem entusiasmo. Minha opinião sobre ela, depois de tudo que Ruan havia me contado, era outra.
_Eu volto depois. _ Priscila deu-me um abraço e disse que repetiria a visita mais tarde.
Pedi-lhe desculpas e ela disse que não precisava, pois entendia perfeitamente.
_Está melhor? Lembrando-se de tudo? _ foi a primeira coisa que minha mãe me perguntou, já acomodada no sofá.
Tranquei a porta e sentei-me ao seu lado.
_Aos poucos. Tudo ótimo. _ acariciei minha barriga e minha mãe olhou fixamente para ela.
_Vejo que meu neto está se desenvolvendo muito bem. E você, está se arranjando com o pai dele?
_Como nunca. _ respondi, não deixaria que me provocasse mais qualquer dúvida contra Ruan.
_Ora, ora, vemos aqui uma família perfeita.
_Não precisa ser irônica. _ pedi, surpreendendo-a.
_Eu não fui irônica! Longe disso. Como pode pensar...?
_Mãe, eu não sei onde quer chegar. _ interrompi-a.
_Como assim? Sou eu que não estou entendendo. _ fez-se de desentendida.
_Até quando você ficará torcendo que as vidas das pessoas dêem errado para justificar suas frustrações?
_Eu não torço por isso, Jeni. Você está sendo muito injusta comigo.
_Mãe, eu estou feliz. _ disse-lhe. _ Estou bem, tenho um marido incrível, aqui dentro de mim, meu bebê, moro em um lar quente e aconchegante. E você? O que tem a dizer sobre si?
_A vida não foi boa comigo, Jeni.
_Não é verdade. Não culpe a vida. Somos nós que não sabemos aproveitar o que ela tem a nos oferecer, querendo sempre mais e mais.
_Fala isso porque, como disse, tem um marido, um filho, uma casa e um lar.
_Mas você teve o Ruan em suas mãos.
_Não era esse Ruan que você conhece. _acrescentou.
_Exato, você quis que ele fosse o Ruan de hoje. Não soube esperar para que crescesse e se tornasse maduro. Não lhe deu a chance de te mostrar que era capaz de mudar. Você queria alguém completo naquele momento. Acabou que não ficou nem com uma coisa, nem outra. Pior, você destruiu a vida dele! O cara chegou ao ponto de pensar em acabar consigo mesmo!
_Jeni, você ainda tem muito o que aprender.
_Pode ser que eu ainda tenha muito o que aprender. Mas, certas coisas não precisamos viver para enxergarmos que são certas ou erradas. Você sempre quis algo maior. Conseguiu viver por algum tempo com um homem muito digno que era meu padrasto. E o que fez? Você o abandonou. Por quê? Ele só podia te dar aquele soldo que não era tão alto assim, te prover uma casa simples e uma vida modesta. Era pouco para você porque nunca soube transformar o que tem em algo que te fizesse feliz.
_Eu não gostava tanto dele assim.
_Desculpas, sempre desculpas para si mesma. Você teve a chance de ficar com Ruan pela segunda vez e o que fez? Você o usou, não contou que estava traindo seu marido. Meteu os pés pelas mãos. Nisso tudo, eu só posso chegar a uma conclusão, enquanto ele amadureceu, você parou no tempo ou, quem sabe, regrediu.
_Eu não vim aqui para ouvir esse tipo de coisa.
_A verdade? Poucas pessoas são capazes de nos apontar o melhor caminho. Elas preferem fazer “hum-hum”, “ãnh-hã”, enquanto estamos contando nossos conflitos porque estão fazendo ouvidos surdos e pensando em si mesmas. Está na hora de achar a saída de emergência para se salvar.
_Eu vou tentar pensar nisso.
_Eu não escolhi o Ruan. _ disse-lhe. _ Eu não o procurei para me vingar de você e um dia esfregar minha aliança, meu filho e minha casa na sua cara. Foi uma grande ironia do destino, mas posso dizer que foi o melhor rumo que poderia tomar. Hoje, sou muito feliz porque as poucas lembranças que tenho já me fazem sentir que valeu a pena. Faça alguma coisa valer a pena para você também. Está na hora de parar de incensar a felicidade dos outros. Não podemos colocar a história alheia em um altar e ficar rendendo adorações a uma existência de perfeição idílica. É uma grande ilusão pensar que não temos problemas. Eu tenho um monte. Eu tive que trancar minha faculdade, vou precisar repetir nas matérias porque não pude concluir. Eu enfrentarei por muito tempo preconceitos de diferença de idade quando estiver com Ruan entre pessoas desconhecidas. Eu preciso enfrentar a saudade dele quando tem que viajar. São mil razões para não achar que é perfeito! Mesmo assim, as pessoas admiram. Só que elas não admiram a ausência de dificuldades, pelo contrário, querem o mesmo para si pela força de superação que temos. Essa força cheia de energia que os invejosos ficam ao redor sugando.
_Eu nunca tive inveja de você. _ tomou o exemplo para si, vestindo a carapuça.
_Não me importa que sentimento guarde por nós, eu só queria que nos deixasse quietos, vivendo nossas vidas. Espero que siga a sua e que seja feliz. Não estou te abandonando como fez comigo um dia. Estou preservando a distância necessária para se manter o mínimo respeito.
_Eu já entendi tudo. _ ela levantou-se e me deu um beijo no topo da cabeça.
Fechei a porta. Ouvi a voz da minha sogra na entrada da sala. Parece que estava ali o tempo todo escutando nossa conversa.
_Eu posso dizer que tenho orgulho da mãe que vai ter o meu neto. _ caminhou até mim e me deu um delicado tapinha no rosto. _ Você é uma gracinha mesmo. Que tal fazermos um café e comermos um pedaço de bolo quentinho que acabei de fazer?
_Eu acho que nós dois vamos gostar muito, não é, filhão? _ acariciei a barriga.
Fomos para a cozinha e eu abri o armário para tirar o pó de café e ajudá-la na preparação do nosso lanche.
_Que caixa é essa? _ perguntei, vendo uma caixa de madeira com um cadeado numerado.
Li Mendi
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Olhei para Jeni sorrindo para mim depois que nos amamos e senti uma imensa alegria no meu coração. Eu não podia exigir mais que aquele momento sublime depois de tantas demonstrações de superação e resistência dela. Não importava que se lembrasse do que vivemos se ao menos eu poderia receber seu carinho. Senti que seu corpo reconhecera o meu e não fora com menos intensidade que me quis com volúpia. Ela podia até não saber que naqueles poucos momentos de entrega fora a Jeni de sempre, mas eu, sim, era capaz de reconhecer este detalhe.
_Você é lindo... _ ela entrelaçou seus dedos entre os meus e chegou mais para perto sob as cobertas. _ ... Eu quero te contar uma coisa.
_Fala. _ apoiei minha cabeça em uma das mãos e repousei a outra sobre a sua cintura.
_Eu me lembrei de vários momentos nossos agora a pouco. Não sei se a intensidade das sensações físicas provocaram isso.
_Que ótimo. _ beijei-lhe os lábios rapidamente. _ Só espero que tenha sido boas lembranças.
_Sim, foram... ótimas... _ riu.
_Ah, me conta! _ pedi, curioso.
_Conto... ou não conto? _ ela levantou a cabeça e beijou meus lábios. _ Conto... ou demonstro?_ aumentou a intensidade do beijo.
_De sacanagem você lembra né?! _ fiz cócegas e ela riu alto. _ Você é linda demais! _ beijei-lhe o pescoço.
_Ruan. _ ela chamou-me com o mesmo jeito de outrora.
_Hum... _ lambi o lóbulo da sua orelha.
_Que nome demos a nosso filho?
_Ah, isso aí foi uma guerra! Nem quero começar agora...
_Tá! Quais eram as opções?
_Você queria Fernando e eu queria Igor.
_Hum... Será Igor, então. _ decidiu.
_Nossa, fácil assim? _ surpreendi-me.
_Ele tem que ter um nome logo! _ explicou-me. _ Não vamos mais perder tempo com isso.
_Nada de perder tempo. Isso mesmo. _ comecei a abraçá-la como se fôssemos começar tudo de novo e ela deu uma gargalhada.
_Ruan, seu sedentinho, perai! _ deu-me um tapinha no braço. _ Deixa eu te falar uma coisa.
Por que as mulheres falam tanto, meu Deus?!
_Diga... _ sorri, bem humorado.
_Eu vi os cadernos de capa vermelha que tinha escrito para você e comecei a ler.
_Bom, são seus mesmo, não tem problema. _ disse-lhe, sentindo pelo seu tom de voz cerimonioso que estava receosa que eu brigasse com ela.
_São lindos. Eu te conheço como ninguém, hen? Tudo bem que vou precisar lembrar de muita coisa ainda, mas só pelo caderno dá para ver! Você me conhece assim também?
_... _ eu não respondi prontamente, olhei-a com contemplação por mais alguns segundos. _ Aprendi a nunca deixar de querer te conhecer. Quando a gente começa a ler sobre um determinado assunto, dá aquela empolgação para descobrir todos os detalhes. Mas, conforme chegamos à sensação de ciência plena, tendemos a nos limitar ao que já temos. Satura. No amor, diferente dos estudos acadêmicos, aprendemos a nunca deixar de querer saber mais sobre a pessoa que está ao nosso lado. Muitos casais se separam por isso, por deixarem de investigar o outro e perderem a chance de se depararem com diversas qualidades boas.
_Gosto tanto de te ouvir falar. _ ela acariciou com o dedão o meu queixo e tocou os meus lábios. _ Só estar perto de você me faz me sentir tão segura, Ruan.
_E ter ficado longe durante o período do seqüestro foram os piores dias da minha vida. _ contei-lhe e beijei a sua mão. _ Não posso te perder mais por nada nesse mundo.
_Um dia eu vou morrer.
_Não fala isso! _ senti uma dor no peito com aquelas palavras. _ Nun-ca mais repita isso! _ pedi-lhe com meu rosto perto do seu.
_ ... _ ela engoliu em seco e olhou para baixo.
_Jeni, eu preciso de você quando chegar em casa para sentir que o dia vai terminar bem nos seus braços. Eu preciso te ver tomando café da manhã e debulhando os pães para tirar os miolos. Ela riu.
_ ... Eu preciso... _ continuei. _... te ver deitada no sofá do escritório lendo algum livro, enquanto eu trabalho, só pelo simples prazer de poder te olhar e saber que está perto com a sua presença viva e cheia de energia. Eu preciso te ver sair do banho com pingos de água nos ombros e cheiro de xampu no cabelo molhado e bagunçado. Eu preciso ter alguém para quem voltar quando sair em missão e receber aquele abraço quente e apertado de boas vindas novamente. Eu preciso de alguém que me acorde com um beijo se o despertador falhar e saber o que é uma farda 3d, ou seja, que entenda o meu mundo.
_ Como descobriu que esse alguém era eu? _ perguntou-me com um olhar reflexivo.
_Quando eu não conseguia ficar longe de você. Quando você começava a brigar comigo e eu só queria te beijar. Quando você fazia tudo errado e eu tinha uma baita paciência para te ensinar. Quanto tinha benevolência com seus contínuos tropeços. Quando eu sabia que você era muito diferente de mim e, mesmo assim, eu queria arriscar te amar. Não tem um marco ao certo, eu, quando me dei conta, já era parte de uma coisa composta por nós dois que não tinha significado se fosse dividida, só existia enquanto unidade. Desculpe, não estou sendo claro... _ ri. _ Eu viajo às vezes.
_Eu entendi! _ disse-me. _ Deus põe nossas almas em corpos para que não possamos ver quem realmente somos. Imagine que nosso interior tivesse cores. O mau é preto; o mais ou menos mau, cinza; o bom, branco; o engraçado, amarelo; o apaixonado, rosa. Sem os corpos, você poderia andar pela rua e ver a pessoa do jeito que ela é, com a cor correspondente a sua personalidade. Mas, claro que não somos cromáticos por dentro. Mesmo assim, suponha que compomos um código de barras cheio de dados e que, sem a parte física, todos veriam o outro sem máscaras. Os bons ficariam com os bons e se afastariam dos maus. Conseqüentemente, os maus se tornariam piores do que são. Só que nós estamos dentro de nossos corpos e enganamos as pessoas com a nossa aparência. Assim, você pode ao tratar bem uma pessoa ruim, sem que nem imagine, mudar sua vida e sua personalidade má. Ou aquele cara barrigudinho pode ser a pessoa perfeita para uma outra que ame, mas que, se não estivesse escondido atrás daquela pequena pança, seria atacado por várias mulheres ávidas por um cara legal e romântico antes da tal mulher que seria boa para ele.
_Mas, nesse caso, você teria que ter pessoas capazes de olhar dentro, neste interior de que fala. Isso é difícil hoje em dia. A máquina do capital trabalha para revestir as pessoas em diversas camadas de maquiagem, roupas, jóias, acessórios, carros, como se fosse empilhando sobre o “eu” vários estratos. No fim, aquela essência fica tão, mas tão escondida, que deixa até de ser importante.
_Nunca deixa de ser importante. _ corrigiu. _ Porque, quando a pessoa de fato precisar, ela vai ver que não encontra. Por isso, tantos casais de artistas milionários se separam. O presidente francês Sarkozy acabou de se separar daquela ex-modelo. Se ela só olhasse as camadas de poder de que ele foi acrescentado, não estaria infeliz.
_Verdade. _ concordei. _ Eu, se passasse na rua e te olhasse, ia te achar bonitinha...
_Bonitinha? Bonitinha é feia arrumada! _ consertou.
_Eu ia te achar linda. _ corrigi. _ A mulher mais gostosa de todo o universo já antes vista nas galáxias mais remotas!
_Não precisa também me comparar aos ETs!
_Eu ia admirar sua beleza, mas não ia me aproximar de você. Imagina? Você é um bebê! _envolvi-a com meus braços e lhe beijei o pescoço.
_Mas você bem que gosta do que os “bebês” fazem!
_Engraçadinha! Então, eu ficaria de longe, não cogitaria a possibilidade de te seduzir. Eis que, loucamente, a vida me põe você dentro de casa e acabo descobrindo que preciso mais que tudo de estar ao seu lado.
_Ai, que lindo! _ beijou-me e manteve o sorriso aberto. _ Eu também preciso de você. _ encostou a cabeça junto ao meu peito e fechou os olhos.
Cobri-a com as cobertas e dormimos abraçados.
Li Mendi
-------------------------------------------------------------------- Última semana do seriado! Não perca nenhum capítulo do final emocionante!
Eu não sabia o que me esperava nesse baile, nem que pessoas veria lá ou que tipo de comportamento deveria ter. Tudo era tão novo para mim, mas, no fundo, sentia-me estranhamente como se já estivesse habituada àquela rotina.
Enquanto terminava de prender o meu cabelo na frente do espelho do banheiro, refletia sobre meus sentimentos, cheguei a conclusão de que era porque Ruan estava comigo. Algo dentro de mim o reconhecia como uma corda de segurança que me prende a uma coisa maior e não me deixa cair.
Passei maquiagem no rosto e um pouco de perfume no pescoço abaixo das orelhas. Olhei para os vidros de perfume e me perguntei se eu o havia pego aleatoriamente ou meu reflexo condicionado tinha me feito escolher o que eu mais gostava. Alinhei os frascos e constatei que eu usara era o mais vazio de todos.
_Será que estou conseguindo me lembrar? _ ri feliz por aquela fagulha de esperança, mesmo que tão pequena. Era parte de mim vindo à tona.
A porta do quarto estava fechada, passei pelo corredor e fiquei esperando na sala Ruan terminar de se arrumar. Vi um paletó cinza pendurado nos braços da cadeira da mesa. Aproximei-me e reparei que na altura dos ombros tinham estrelas. Passei os dedos para sentir o relevo delas. Um flash de imagem percorreu minha mente. Fechei os olhos. Vi um lugar com muitas pessoas que falavam alto, parecia uma festa. E apareciam várias dessas estrelas no ombro dos homens.
Abri os olhos e corri para o móvel de fotografias. Procurei em cada porta-retrato.
_Foi no dia do nosso casamento! _ falei exultante, quando encontrei a imagem que viera a memória.
Não pode ser, não pode ser! Eu estava lembrando!
Senti novamente vontade de ir ao banheiro. Voltei até lá e quando cheguei na sala outra vez Ruan estava de costas para mim, mas já vestido com o paletó cinza da farda. Ele ouviu o barulho dos meus passos e virou-se.
Eu o olhei da ponta dos pés até o alto da cabeça. Estava muito bonito e meu coração disparou. Era eu que sentia aquilo ou a Jeni dele que havia dentro de mim? Não importava, eu já estava sem fôlego.
_Quero que me responda uma coisa. _ pedi. _ É esse o perfume que eu mais uso. _ apontei para o meu pescoço, timidamente.
Ele caminhou na minha direção até parar à minha frente. Não precisava se aproximar mais para sentir o aroma, mas mesmo assim ficou tão perto que sua respiração balançava os poucos fios soltos do meu cabelo.
_Na verdade, você não gosta muito desse. _ riu.
_Não? _ franzi a testa. _Hum... _ fiquei desapontada.
_Sou eu que gosto, por isso usa. Você lembrou?
_Não sei se eu lembrei, mas foi o primeiro que peguei, então pensei que alguém dentro de mim estava certa do que queria e estranhei a reação impulsiva de pegar aquele vidro.
_Eu gosto de acreditar em toda pequena ponta de esperança.
_Eu também. _disse-lhe.
_Vamos?
_Vamos. _ dei dois passos à frente.
_Jeni? _ ele tocou meu braço.
_Hum. _ virei meu rosto para trás.
_Eu... _ não encontrou as palavras que buscava.
_Você...? _ levantei as sobrancelhas.
_Eu queria me desculpar por todas aquelas coisas de hoje à tarde.
_Coisas? _ olhei para os lados e depois voltei a encará-lo, rapidamente. _ Tipo me chamar de chata, infantil e imatura?
_É. _ riu de nervosismo. _ Eu não devia ter feito isso, eu fui indelicado.
_Indelicado, grosso, estúpido, escr...
_Hei!
_Eu estou brincando. _ sorri. _ Esqueça!
Ele sorriu também e me ofereceu o braço.
Quando chegamos à festa, senti os olhares das pessoas se voltarem para nós como se fossemos o casal popstar esperado.
_É impressão minha ou viramos o foco das atenções? _ falei baixinho, tentando manter o sorriso e retribuir o aceno para aqueles que nos cumprimentavam de longe.
_Eles leram tudo nos jornais.
_Que maravilha... _ continuei sorrindo. _... Me sinto nua agora.
_Vejo que estão bem. _ um senhor aproximou-se de nós e Ruan o cumprimentou efusivamente. Tentei ser o mais cordial possível e troquei dois beijinhos com sua esposa.
Quando eles se afastaram, Ruan riu.
_Acho que ela não vai dormir hoje tentando entender sua atenção.
_Entender o quê?
_Você odeia ela.
_Odeio? _ ri.
_É, uma vez tive que separar você duas porque estavam se estranhando lá fora como quem fosse entrar para o primeiro round de uma luta transmitida via satélite.
_Que gafe! _ ri mais ainda, absolutamente constrangida.
_Essa é a Jeni.
_O quê? _ perguntei, novamente sem entender.
Ruan caminhou para uma área ao ar livre fora do salão, onde algumas mesas vazias ficavam longe do barulho da música e do agito das pessoas.
_Por que eu pareci com ela, quero dizer, comigo agora?
_É estranho... Eu sinto que você, ela, você... _ ele riu.
_Não se preocupe, eu entendi. _ achei graça também.
_Você não lembra, mas tem reações que ela teria. Como agora, se divertindo de umas situações que a Jeni que eu conheci no início não riria. Se você só se lembra até o estágio anterior ao nosso encontro, então, deveria agir só como era antes! A Jeni mais madura e a Jeni inexperiente se alternam. Pareço ver uma peça de teatro com duas personagens que, entre o abrir e fechar das cortinas, assumem o palco separadamente em diferentes atos.
_Eu sinto muitas coisas também. Se você vê um filme que comprou o DVD e tem ainda vontade de rever algumas cenas preferidas, é só aperta o play e ver de novo. Mas a minha memória não traz de volta os bons momentos. É como se eu tivesse uma vida vazia. Não importa o quão ruim é o nosso destino, quantas quedas sofremos, temos todas elas para lembrar que podemos ser melhores e somos capazes de superar. Eu só levo comigo uma folha em branco.
_Se não conseguir encontrar o seu filme, então use a folha em branco para escrever o roteiro de outro.
_É triste não ter passado.
_É triste quando o passado que se tem não se quer lembrar. _ ele sentou-se.
_Por que diz isso? _ pus os cotovelos sobre a mesa e fiz um ar de quem está disposta a ouvir tudo.
_Se eu contar, você não vai acreditar... _ sorriu envergonhado. _Aliás, tem coisas que e a gente só deveria contar uma vez na vida... _ riu alto de si mesmo. _ ... porque elas demandam muita energia. Eu lembro de todas as suas reações e da raiva que sentiu de mim. Imagina ver tudo isso novamente no seu rosto agora? Não, vamos mudar de assunto.
_Conta. _ pus a mão sobre seu braço.
Ruan respirou fundo e me olhou como quem me estuda para saber se eu estava preparada para o que ia descobrir.
_ Eu já fui apaixonado por sua mãe.
Eu engoli em seco e tentei não dizer nada. Não teria a reação que ele esperava, me agüentaria. Por mais que no meu interior eu estivesse muito surpresa.
_Na verdade, namoramos. Mas Elisa fez muitas coisas que me machucou.
_Não duvido, ela me deixou e isso posso lembrar claramente.
Ruan contou-me que minha mãe havia tentado convencê-lo de que esperava um filho seu e depois o abortara. Acrescentou que isso o motivara a tentar acabar com a própria vida, mas que o destino o deu mais uma chance. Explicou em detalhes como foi nosso encontro e as brigas que tivemos. Relatou-me também o episódio de Daniel e, finalmente, a nossa briga anterior ao casamento por causa da visita inesperada de minha mãe, que tentou nos separar.
_Vivemos intensamente muita coisa! _ exclamei.
_Muito. A gente se debateu contra o que sentíamos. Era essa a origem de tantas guerras que travamos. Você não sabe do que é capaz!
Ruan me fez rir narrando o episódio em que troquei os ring tones do seu celular e coloquei fotos de homem em seu computador.
_Eu não fiz isso! _ diverti-me.
_Agora é engraçado, mas, no dia, eu fiquei tão irado que quis te esganar! _ gesticulou. _ A gente parecia que ia lutar até um dos dois cair morto como os gladiadores. Mas descobrimos que podíamos usar toda aquele sentimento forte para sermos felizes.
_Se alguém contasse nossa história para mim eu iria achá-la a mais linda que já ouvi.
_E a mais louca também!
_A gente não vive de monotonia. _ disse-lhe.
_Pela primeira vez você não falou em terceira pessoa. _ observou.
Eu sorri e olhei para o lado timidamente.
_Vamos dançar? Viemos aqui para isso. _ sugeriu.
_Com a barriga desse tamanho?
_Que tem? _ ele levantou-se.
_Não! _ segurei sua mão quando ele me puxou. _ Por favor, não quero aquelas pessoas me olhando.
_Você sempre gostou...
_Por favor.
_Tudo bem.
_Podemos dançar aqui, se quiser.
Ele colocou sua mão por trás da minha cintura e eu me senti desajeitada. Rimos os dois até ficarmos sérios novamente.
Enquanto a música nos envolvia, novamente aqueles flashs me vieram à cabeça.
_Está se sentindo bem, Jeni? _ perguntou.
_Não... Só umas coisas que estão passando na minha mente. _ levei a mão à testa.
_O quê? _ não entendeu.
_Eu sinto que já estivemos aqui e essas pessoas... _ eu parecia estar confundindo-me nas próprias palavras.
_Que ótimo! Isso aconteceu mais de uma vez?
_Sim. _ sorri feliz. _ Está funcionando. Ficar perto de você me faz ter sensações.
_Não posso acreditar!
_Mas calma...
_Claro! Nada de grandes expectativas! Quer ir para casa? Já está tarde mesmo.
_Pode ser. _ aceitei.
Quando chegamos, fomos para o quarto trocar de roupa. Sua mãe já tinha ido dormir. Ruan pendurou o paletó da farda cinza no cabide e depois caminhou até a poltrona. Provavelmente, ia começar a tirar os sapatos no seu ritual de se despir.
_Você não tem curiosidade? _ ele perguntou, de repente, virando-se para mim.
_Do que?
_Hum... de saber o que pode sentir quando me beijar?
_Isso seria um tratamento de choque!
Ele riu e balançou a cabeça para os lados.
_Deixa para lá! _ desistiu da idéia.
_Ok, pode ser. _ falei, tentando ser fria. _ Me beije, anda, me beije, eu tenho que sentir alguma coisa. _ pus as mãos na cintura e apertei meus lábios um contra o outro para me preparar. Respirei fundo. _ Quem mal tem nisso? Se eu te conhecesse em um bar, rolasse um clima e eu quisesse te beijar, não precisaria te conhecer, não é verdade? _ comecei a tagarelar enquanto Ruan fechava a porta do quarto. _ Vamos lá, me mostre por que eu me casei com você. Pode começar, anda logo.
Fechar os olhos aumentava meu nervosismo, porque eu não poderia prever os seus movimentos. Sua presença física aproximou-se de mim e eu senti sua mão delicadamente percorrer o contorno dos meus braços, encostando delicadamente apenas nos pêlos, sem tocar na pele. Depois sua respiração quente no meu pescoço de um lado passou para o outro.
_Não existe mais nada. _ falou baixinho tão perto dos meus lábios que eu já praticamente podia sentir que ia tocar os meus. _ Nem passado, nem futuro, só agora. _ Deixou seu hálito quente sobre minhas pálpebras e a pele das minhas faces. _ Deixe seu corpo leve e solto. _ dedilhou o meu cabelo. _ Permita que sua alma fique livre para se encontrar de novo com a minha. _ sua boca roçou o meu pescoço e me provocou um arrepio, meneei a cabeça para o lado e seu rosto ficou entre meu queixo e o ombro.
Ele contornou o meu corpo girando em torno de mim e afastou meu cabelo para beijar as minhas costas. Abriu o zíper do meu vestido e delicadamente abaixou as alças. Quando novamente ficou diante de mim, eu abri os olhos e me senti a ponto de cometer um impulso de beijá-lo, só precisava de um pequeno gesto seu. Os dois ao mesmo tempo se precipitaram para frente e nossas bocas se fundiram.
Eu queria seus lábios como se tivesse esperado por eles por muito tempo. Senti-os macios e molhados entre os meus. Segurei seu rosto com as minhas duas mãos e parecia já ter feito aquilo desde sempre. Meu corpo o reconhecia e sabia para onde guiar minhas mãos.
Ruan aumentou o ritmo e começamos a ficar ofegantes. Ele caminhou de costas até sentar na cama, inclinei meu rosto e o beijei mais uma vez longamente a boca. Deixei meus dedos percorrer o cabelo espetado da sua nuca.
_Você quer passar parar o que vem depois disso... _ ele perguntou, afastando seus lábios dos meus.
_Se eu pudesse parar...
_Eu também não posso mais. _ ele levantou-se e tirou a blusa branca de botões e, antes que pudesse se livrar dela dos seus braços, beijou-me mais uma vez com uma pressa irrompida.
Se eu nunca havia passado por aquela experiência como podia sentir que estava tudo sob controle?
Envolvi seu pescoço com meus braços quando já estávamos sobre a cama e ele me amou com uma busca profunda. A corrente de energia que percorria todo o meu corpo elevou minha temperatura e os flashs de memória se tornaram mais intensos, mas eu não queria interromper nossa união física com palavras.
Com a mesma delicadeza que começamos chegamos ao ápice de olhos fechados e imersos no abstrato do prazer. Até que ficamos sobre a superfície da paz plena e silenciosa.
_Eu estava com muita saudade disso. _ sorriu para mim e acariciou meu rosto admirando-me.
Puxei sua nuca para me beijar mais e eu não quis parar de sentir o contato entre nossos corpos. Eu não lembrava de tudo que vivemos no passado, mas podia inexplicavelmente sentir.
_O que nós fazíamos para nos divertir? _ Jeni perguntou, sentada ao meu lado no sofá, ela parecia bem entediada enquanto eu lia meu jornal de domingo depois do almoço.
_Sexo. _ respondi sem tirar os olhos do caderno de esportes.
_Sexo? Sexo o dia todo?
_É.Tem coisa melhor? _ virei a folha e dei uma rápida olhadela em sua cara de assustada. _ Sexo no sofá, na mesa, no tapete, no jardim, na escadinha ali da entrada...
_Eu era uma ninfomaníaca?
_Estou brincando com você!
_Seu... _ arremessou uma almofada na minha cabeça.
_Olha o que fez com o jornal! Amassou! _ agüentei para não rir e tentei parecer bravo.
_Você gosta de brincar com a minha situação, né? Mas se quer saber, eu sou praticamente virgem!
_Praticamente virgem? _ repeti com toda a ironia que consegui. _ Isso é piada, né? Jeni, a única realmente virgem aqui é aquela imagenzinha que temos em cima da estante.
_Ruan! Mas eu não lembro de nada!
_Ah, mas eu lembro! _ dobrei novamente o jornal para ver a situação do ranking do Brasileirão. _ Eu lembro de cada coisa...
_Seu grosso! Seu estúpido! E eu não lembro de nada! _ falou aquilo com prazer no intuito de me provocar. _ Nem meu corpo lembra nada, nadica de nada do seu, nem...
Eu perdi a paciência, larguei o jornal puto da vida agora e me levantei. Jeni fechou a boca e inclinou a cabeça ligeiramente para trás com medo do que eu pudesse lhe fazer.
_Presta atenção, garota... _apoiei meus punhos fechados sobre o sofá e praticamente encostei meu rosto no dela. _... Eu entendo que você esteja irritada, que não me queira como me queria, só não me provoque porque um homem que está há um mês na seca total pode perder a cabeça, entendeu bem, ou quer que eu faça um desenhozinho?
Os olhos delas se encheram de lágrimas e fez uma carinha de quem ia deixar as comportas da represa de Itaipu caírem. Puta que pariu, por que as mulheres usam esse golpe tão baixo, tão sujo, tão sacana?
_Não chora, não chora! _ segurei seu rosto.
_Eu estou tentando, ok? Mas, você não está ajudando, você é um animal! _ gritou comigo e se levantou para sair da sala.
Revirei os olhos. Oh, que ótimo, agora eu era o lobo mal que queria comer a Chapeuzinho Vermelho.
Porra, tá vendo, leitores? Não consigo mais ler, não tem clima! Joguei o jornal de lado e ele caiu na cabeça de Juanito que deu um latido e correu de mim também.
_Jeni... _ cheguei na porta do seu quarto. _... Quer ia a um baile comigo hoje?
_Não... _ falou com a voz abafada pelo travesseiro. _... Não vou te fazer desfilar com uma baleia gigante.
_Você não é uma “baleia gigante”. _ repeti, tentando imitar sua voz e dei a volta na cama para poder sentar-me ao seu lado. _ É meu filho que está aí... _ toquei a sua barriga.
_Tira a mão daí, enquanto estiver aqui é meu! _ irritou-se.
_Caraca, você é a mesma, a mesmíssima Jeni chata! Está bancando a infantil de novo e você estava progredindo!
_Ruan, eu não gosto de você... _ ela sentou-se na cama e vi que seus olhos estavam vermelhos. _ Eu não gosto de vocêêê... _ gritou a todos pulmões.
_Você só não lembra que gosta. _ consertei falando baixinho, olhando para as minhas mãos.
_Eu não agüento isso mais, não agüento tentar me lembrar só para te fazer feliz, eu quero deixar de ser essa Jeni, só que não dá! _ ela dedilhou os cabelos para trás, alucinada.
_Hei, você não pode se irritar. _ lembrei-me. _ Altera sua pressão, faz mal para o bebê.
_O bebê, o bebê! Você só pensa nessa...
Num impulso tapei sua boca com a minha mão:
_Não ouse falar qualquer palavra contra o meu filho porque ele já está sentindo tudo isso, não merece ouvir também. Você sabia que as crianças recebem tudo que a mãe emana para eles?
Em um instante, eu tive um reflexo. Se Jeni estava tão mal e dizendo que não agüentava a perda de memória, ela poderia ser capaz de uma loucura. Não a deixaria entrar em uma depressão, isso levaria tudo por água abaixo de vez.
_Vamos ajudar um ao outro. Eu te ajudo e você me ajuda, tudo bem? _ tirei minha mão da sua boca e tentei ser o mais amigável possível. _ Que tal a gente sair? Tem um baile no clube, dança de salão. A gente se diverte e...
_Como espera que eu vá vestida? Enrolada nessa cortina?
_É... _ olhei para a cortina. _ Pode ser, você acha que cabe? Parece que vai ficar apertada.
_Aiii, Ruan! _ ela deitou-se de volta no travesseiro.
_Não se preocupe, você já tinha pensado nisso antes. Há dois vestidos de grávida lá no nosso guarda-roupa. Eu prefiro o azul claro.
_É? _ ela pareceu se animar.
Ficou fechado então o pacto de trégua para nos prepararmos para a festa.
Li Mendi
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Ruan pareceu-me bem simpático e divertido ao primeiro contato. Minha mãe disse que ele era um pouco sério demais e uma pessoa dura de se lidar. Eu não entendi porque me passava uma imagem assim daquele homem. Pelo contrário, tentava fazer com que nosso contato fosse amistoso e sem pressões para que eu bancasse sua mulher.
_Vamos sair pela porta dos fundos, ok? _ ele me disse, guiando a cadeira de rodas.
Pelo corredor, Ruan foi cumprimentando as enfermeiras e todos aqueles que conviveram conosco durante o período em que estive no hospital. Achei até simpático da sua parte. Mas, o ponto fraco para atingir o seu mau humor era quando via jornalistas. Foi o que aconteceu assim que um guarda abriu o portão para nós.
_O que eles fazem aqui? _ assustou-se com todos os flashs que foram disparados sobre nós. _Por favor, dêem passagem, ela está precisando se recuperar, por favor, saiam da frente.
_Jeniffer, é verdade que você perdeu a memória? _ uma jornalista perguntou, enquanto Ruan me ajudava a entrar no carro.
_Como eles sabem? _ perguntei enquanto ele ligava o carro.
_Alguém do hospital deve ter mantido eles informados sobre tudo.
_Alguma daquelas pessoas que você cumprimentou antes de sair?
_Quem sabe? Não se pode confiar em todo mundo... _ balançou a cabeça para os lados.
Entramos em uma rua comprida, de casas praticamente iguais umas às outras. Bonitinhas, com telhados vermelhos e fachadas brancas.
_Isso é uma vila?
_Sim. _ respondeu ele. _Vou te ajudar. _ Ruan me deu a mão para eu sair do carro e a manteve em volta da minha cintura.
_Não se preocupe, eu posso andar perfeitamente. _ disse-lhe.
Um cachorro veio correndo nos receber aos saltos.
_É o nosso cachorro? _ sorri e quis me abaixar para tocá-lo, mas a barriga já grande me atrapalhava um pouco. _ Como se chama?
_Juanito.
_Vocês deram o seu nome ao cachorro?
_Não, é com “J” e não com “R” e quem deu o nome foi você. Por que falou de nós, como se estivesse em terceira pessoa?
_Desculpe... Eu me sinto assim.
_Tudo bem. Vamos entrar. _ ele indicou o caminho.
Uma mulher apareceu na cozinha com o rosto amassado e cara de sono.
_Olá, minha querida, que bom que está de volta. Rezei tantas novenas para isso!
Eu sorri e olhei para Ruan.
_Minha mãe... _ me apresentou.
_Oi!
_Oi. _ ela me abraçou efusivamente.
Pelo visto, eu era muito querida naquela família.
_Eu vou voltar a dormir, vocês precisam de alguma coisa? _ perguntou.
_Não, não. _ Ruan dispensou suas preocupações. _ Vem, Jeni. _ chamou e eu o segui pelo corredor.
_Ruan, me diz uma coisa: quem ficou com meu cachorro?
_O Fred?
_É.
_Você não lembra? _perguntei.
_Para variar... não.
_Aiii, vai começar tudo de novo. Quando eu pensei que já tinha acabado com este assunto...
_Quê?
_Olha, antes que você comece a fazer um escândalo, agora você tem um cachorro e um peixe.
_Cachorro e peixe? Mas o que isso tem a ver com o Fred?
_Eu matei o seu cachorro.
_O quê?!
_Eu disse que não era para gritar!
_Bom, eu acabo de saber que casei com o cara que matou o meu cachorro?
Ruan revirou os olhos e sentou-se na pequena poltrona de canto do quarto. Começou a desamarrar o tênis.
_Foi o seguinte. Como lhe falei, seu padrasto morreu. No dia que eu fui lhe dar a notícia, você desmaiou. Eu pedi para um soldado despistar o cachorro, sei lá, dar um tiro na pata, coisa assim, porque o soldado ia pular o muro...
_Meu Deus, você é um monstro!
_É, você já me disse isso vinte vezes, pode acreditar. _ garantiu-me._Mas eu não tenho culpa que o cara tenha descarregado no bicho. _ desculpou-se
_Descarregado?! _ sentei-me na cama.
_Olha só, Jeni, eu não queria que tivesse acabado desse jeito. _ Ruan ficou parado na minha frente. _ Eu sei que você está triste agora, como ano passado... _ sua voz ficou abafada por causa da camisa que acabava de tirar, puxando-a pelo pescoço. Com apenas aquele movimento de suspender a camisa, seus músculos se contraíram sobre as costelas e formaram um quadro de curvas e reentrâncias nunca antes vistos por mim fora das revistas das bancas de jornal.
Esqueci o Fred por uns segundos e meus olhos se fixaram naquela barriga definida e o peitoral musculoso. Poucos pêlos, mas que faziam caminhos pelo abdômen, caminhos esses que, de repente, seguiam na contra-mão, viravam rodamoinhos, trilhas. Jeni! Acorda, alouuu, girl?
_... E você gosta muito do Juanito agora, concentre-se nisso! _ continuou a falar o que eu nem mais conseguia prestar atenção. Ele abriu o cinto da calça, puxou o zíper até embaixo e vi sua cueca branca, com um coz de elástico grosso escrito "sexy, come and get it".
Eu virei o rosto para o lado e evitei observá-lo.
_... Por favor, tem como não falar sobre seu cachorro durante mais meio ano? _ pediu.
Novamente o encarei. Ruan segurou o coz e abaixou a calça. Comecei a rir de nervosismo.
_Que foi? _ perguntou.
_Nada! _ controlei o riso. Estava sem saber onde colocar as minhas mãos, cocei a nuca, coloquei-as na cintura e, por fim, cruzei os braços.
_Não se preocupe..._ piscou para mim._... é tu-do seu._ Caminhou para o banheiro.
Instintivamente, fui virando a cabeça e seguindo-o com os olhos para vê-lo de costas e que costas eram aquelas?! Jeniiii!
Ele tirou a cueca e vi a marca de queimado da sunga de praia que tinha sido deixada ali para o deleite de poucas, quero dizer, eu ver. Mumurei bem devagar:
_Aiiiii, meu Deus!
Ruan deixou a porta do banheiro aberta. Caminhei até lá e fiquei conversando com ele enquanto tomava banho dentro do box de vidro fosco.
Sentei-me na tampa fechada do vaso.
_O que mais eu preciso saber? Você me deu um peixe e um cachorro. E daí?
_Bom, o que mais você quer saber? _ ele abriu a porta do box e o vi completamente molhado, sob a ducha do chuveiro. Passou a mão no rosto para se livrar da água e me olhar melhor.
Virei-me para a parede, abruptamente, mas não adiantava fugir, lá estava sua imagem refletida no espelho.
_Ora, você gostava de ler meus livros, ouvir música, tem um computador no seu quarto..._ esfregou o sabonete no corpo.
_Eu tenho um quarto só para mim? _ perguntei.
_Tem! _ Ruan terminou o banho, saiu do box e buscou a toalha pendurada.
_Aaaah! _ gritei e tampei a boca com a mão.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo, começou a secar as costas esfregando a toalha em um movimento de vai e vem.
_Pior que tem! Quando você veio morar comigo, fizemos um quarto para você. Minha mãe está dormindo lá agora.
_Ãnh... _ engoli em seco.
Ruan continuou secando agora a cabeça, enquanto eu estava bem de frente para ele, na altura respectiva... Isso mesmo, eu não tinha nem voz para falar. Meu cérebro parou!
_Mas, por enquanto, você vai dormir comigo. É melhor, você vive pedindo mil coisas e, estando do meu lado, já ajuda. Fico menos preocupado. Tudo bem para você?
_Tudo... _ levantei as sobrancelhas e franzi a testa. _ Tudo..._ recuperei o fôlego._... Tudo ó-ti-mo.
Ele caminhou de volta para o quarto e eu fiquei ali. Pa-ra-da, imersa ainda na nuvem quente de fumaça.
_Uauuu! _ balancei a cabeça para os lados e me levantei.
Ruan colocou uma pilha de almofadas e travesseiros e eu perguntei para quê aquilo.
_Para seus pés que ficam sempre inchados. _ informou.
_Hummm... _cocei a nuca. _... Tem como você dormir vestido? _ perguntei, constrangida.
_Eu estou vestido. _ ele deitou-se de bruços.
_Bom, com alguma coisa maior que esses poucos centímetros quadrados de cueca!
Ruan levantou-se batendo o pé e resmungando.
_Que maravilha! _ abriu o guarda-roupa e retirou uma camisa branca. _ Está bom assim? _ caminhou de volta para cama.
_Não tem nenhum shortinho não? _ pedi.
_Aiiiiieeeeeeeee! _ voltou para buscar uma bermuda comprida até o joelho. _ Quer que eu coloque os sapatos também?
_Não, assim está bom.
Ele se jogou de bruços no colchão.
Fiquei olhando para o teto, não conseguia relaxar, nem dormir.
_Que foi? Está estranhando a cama? _ perguntou.
_Basicamente isso... a cama e todo o resto.
_Vem cá... _ ele sentou-se. _... Vire de lado, nesta posição de barriga para cima você faz muito peso sobre a coluna. _ indicou-me como eu deveria ficar. _ ... Agora feche os olhos. _ pediu.
Eu fechei e senti sua respiração próxima ao meu pescoço. Ele puxou os fios do meu cabelo para trás e fez carinho na minha cabeça.
Olhei para o rosto de Jeni e achei, por uns segundos, que ela estivesse me desconhecendo, mas não podia ser isso. Nós nos amávamos, éramos casados e estávamos esperando a chegada do nosso filho!
_Que isso?... _ sorri e balancei a cabeça para os lados. _ Está brincando comigo, minha querida?
_Por favor, não me beije. _ ela pediu quando cheguei mais perto para lhe fazer carinho. Disse isso quase como quem olha alguém que está prestes a atacá-la.
_Ruan? _ ouvi a voz de Elisa atrás de mim. Se ela tinha algo a ver com isso, era bom mesmo que estivéssemos no hospital, porque eu ia perder a razão e esganá-la!
_O que está acontecendo aqui? _ perguntei, agora com a voz irritada.
Ela bebeu a água que trazia no copo e depois olhou para Jeni, fez carinho no rosto da filha e sorriu. Era real a cena que eu estava enxergando ou precisava ser medicado contra alucinações?
_Nós vamos conversar um pouco ali fora e depois voltamos para ficar com você, minha querida. Tudo bem? _ beijou-lhe a testa. _ Vem comigo, Ruan.
Eu continuei parado onde estava, olhando para Jeni na esperança de entender que brincadeira de mau gosto era aquela que as duas faziam comigo. Será que algum programa resolveu colocar uma câmera escondida e, por trás desta, uma platéia dava gargalhadas da pegadinha?
_Ruan? _ Elisa chamou-me mais uma vez da porta.
Eu coloquei as mãos na cintura, depois respirei fundo. Cocei a barba rala no queixo e decidi segui-la. Paramos na sala de espera.
_Eu quero uma ótima explicação para isso.
_Ruan... Você vai ter que ser forte... _ Elisa colocou a mão no meu braço.
_Não me toque! _ afastei-me eletrizado por aquele contato, tinha nojo daquela mulher. Ela supostamente envenenara Jeni contra mim. _ O que você falou para Jeni?
_Ruan, quer um pouco de água? Se acalme, as pessoas estão olhando... _ ela olhou discretamente para os lados.
_Eu não me importo que olhem! E quem é você para dizer isso? Já falou para o mundo inteiro nossa história. Não duvido que até os sultões do Oriente Médio já saibam, nem que algum escritor já tenha começado a escrever um best seller sobre o caso...
_Ruan, posso falar?!
_... _ parei e a olhei de lado, disposto a ouvir algo coerente que elucidasse aquilo.
_Ela não se lembra de nada.
_Quê?!
_Pode ser que se lembre... que se lembre...um dia. Mas, por enquanto, só se recorda de um pouco antes de ter te conhecido. Ela não sabe quem você é.
_Quem eu sou? _ ri. _ Eu sou o marido dela, eu sou o pai do filho que ela está esperando... _ comecei a enumerar, apontando para os dedos. _ ... Eu arrisquei a minha vida para salvá-la.
_Eu sei! Mas ela não lembra! Ela não lembra! _ foi enfática.
Eu senti que o mundo começava a girar e o rosto das pessoas ficaram embaçados. Precisava de ar. Caminhei para a porta do hospital.
_Sua esposa acordou?
_Como ela está?
_A criança sobreviveu?
Um batalhão de repórteres de plantão dispararam flashs sobre mim e direcionaram seus microfones, gravadores e celulares para a minha boca.
_Gente, ela está bem. _ Elisa apareceu e se incluiu no círculo da imprensa.
Aproveitei para fugir deles e pedi para a recepcionista que chamasse o médico de Jeni. Ela pegou o telefone e fez uma ligação. Depois, anunciou que ele me esperava.
_Obrigado.
Quando entrei na sala do médico, ele já percebera pela minha inquietude que eu tinha recebido a notícia.
_Ela vai levar quanto tempo para lembrar de tudo? _ era a pergunta que me martelava.
_Não posso te dar garantias. Mas tenho que lhe dizer que ela é muito sortuda.
_Sortuda? Ela perdeu o passado que tinha comigo...
_Os homens pedem demais de Deus... _ ele riu e balançou a cabeça para os lados. _... Eu não queria lhe dizer para não te tirar as esperanças, mas muitas pessoas saem do coma com seqüelas gravíssimas, sem movimentar os braços e as pernas, perdem visão, a voz, entre outras tantas conseqüências ruins. Sua esposa está com todos os reflexos físicos ótimos. Isso sim é que é um milagre. Eu, como médico, acredito na ciência, mas também sou formado de parte humana e posso dizer que foi um verdadeiro milagre. Sem contar no filho de vocês se desenvolvendo muito bem.
Engoli em seco.
_Ela vai precisar de muito carinho...
Ouvimos alguém bater na porta e o médico disse que podia entrar. Era Elisa.
_Fique à vontade. _ indicou a cadeira ao meu lado. _ Estava justamente falando para seu genro que a Jeniffer vai precisar de muita atenção e afeto.
_Claro, não faltará isso a ela! _ Elisa garantiu.
_É importante que a deixem comandar o processo de lembrança. Não forcem, nem façam perguntas demais. Respondam o que ela perguntar, mas sem pressões, isso poderia bloquear ainda mais os mecanismos de recuperação da memória.
_Faremos isso. _ ela disse e eu só conseguia ficar mudo.
_Hei, meu rapaz... _ ele bateu com a ponta da caneta na mesa para chamar minha atenção. _ Eu tenho uma mulher há quarenta anos e ainda acho que ela não me conhece completamente. _ riu. _ Se Jeni nunca mais vier a se lembrar, conquiste-a outra vez. Você não é o “Don Juan”? _ fez aquela piadinha sem graça.
Eu não ri, olhei-o longamente e não consegui dizer nada.
_Deixe ela ficar com a mãe, ao menos por esses dias.
_Na minha casa? _ perguntei.
_Há algum problema nisso? _ ele estranhou meu questionamento.
Se soubesse o que estava me pedindo, se ao menos estivesse por dentro de todo o terremoto que foi o meu passado com Elisa.
_Eu li os jornais. _ comentou, lendo meu pensamento. _ Acho que agora o que importa para os dois é lutar por Jeniffer.
_É o que nós faremos, não é Ruan? _ Elisa colocou sua mão sobre o meu ombro.
_É. _ disse aquilo com toda a força que arranquei de mim.
Ao sairmos da sala, novamente, fiquei a sós com Elisa.
_Eu sei que não gosta de mim. _ ela introduziu o assunto. _ Nem eu quero invadir a sua privacidade. Não ia me sentir bem com a sua mãe sobre o mesmo teto. Só gostaria que não me privasse de visitá-la.
_Tudo bem. Se é para o bem dela, eu aceito. Mas, gostaria de pedir que fosse no horário em que eu estivesse no trabalho.
_Como preferir. _ sorriu e encolheu os ombros.
_Eu quero vê-la, saí de lá tão bruscamente...
_Lembre-se, não force nada! _ pediu. _ Vou até a casa da minha amiga tomar um banho e comer alguma coisa.
_Certo. _ consenti com a cabeça.
Eu estava receoso de voltar a vê-la dessa vez. Não era a Jeni que estava naquela cama e sim uma mulher que me desconhecia. Isso significava que nossa história tinha sido arrancada do livro da vida bruscamente.
Olhei-a pelo vidro que nos separava. Parecia dormir.
Eu tinha que ter força. Era minha missão agora recomeçar e ensinar a Jeni me amar outra vez. Será possível conquistar duas vezes a mesma mulher?
Girei a maçaneta e o pequeno barulho do ranger das dobradiças a despertou.
_Posso entrar? _ perguntei para que ela não me olhasse com tanto medo.
Não respondeu, continuou acompanhando meus movimentos com os olhos enquanto eu pegava a cadeira para sentar ao seu lado.
_ O que se diz nessas horas? _ ri, nervoso.
_ ... _ sorriu um ensaio de sorriso.
_ É... _ cocei a testa com o polegar, procurei as melhores palavras. _ Imagino que deve ter sido estranho para você acordar casada e grávida.
_ Foi assustador. _ respondeu.
Aquilo doeu de ouvir. Tudo de maravilhoso que vivemos era como um filme de terror para ela?
_ Não liga, eu também estou bem constrangido, sabe? Você me conhece, quero dizer... _ revirei os olhos. _... você me conhecia tão bem e agora eu preciso me reapresentar. Capitão Ruan, às suas ordens. _ estendi a mão.
Ela riu e segurou minha mão. Se eu pudesse lhe dizer que sentir o toque dos seus dedos me dava vontade de agarrá-la e cobri-la de beijos...
_Capitão do quê? _ quis saber.
_Ah! Eu sou militar.
_Hum... _ ela levantou as sobrancelhas.
_Ruan... _ foi à primeira vez que me chamou pelo nome, mas com a solenidade que eu não queria. _ Eu sei que, teoricamente, nós moramos juntos... Mas, onde vou ficar?
_Como assim, meu am..., Jeni?
_Minha mãe me falou que eu não preciso forçar nada, nem ser sua esposa, que não seria justo comig...
_Ela falou isso? _ interrompi-a e franzi a testa, ultrajado.
_É. Achei estranho, porque ela deveria querer que eu ficasse perto de você. Não que eu queira isso, não me entenda mal, mas...
_Jeni, Jeni, ouça. _ fiz um sinal com a mão para me deixar falar. _ Está vendo isso aqui? _ mostrei a aliança a ela. _ É um sinal de que, um dia você, mesmo que não lembre, acreditou em mim. O que vivemos não foi só amor, foi amizade também. Não vou obrigá-la a ser o que era antes de modo algum! Seremos amigos, bons amigos.
_Eu não sei se vou voltar a amá-lo como quer e acabaria eu mesma me cobrando isso.
_Me dê uma chance de tentar?
_Tentar o quê?
_Fazer você me conhecer de novo.
_Eu não tenho outra alternativa, não é? Estou esperando um filho seu.
_Nosso. _ corrigi.
_Sinto-me como em um casamento arranjado que nunca quis e com um homem que me apresentaram no dia da cerimônia! _ ela estava mais agoniada do que eu imaginara.
_É só uma chance, se não quiser, você pode me deixar.
_Como pode me dizer uma coisa dessas?
_É o amor. E o amor faz coisas como as que eu fiz que nem imagina, melhor, nem lembra.
_Desculpe.
_Eu não quero desculpas, só uma chance. _ pedi.
_Podemos tentar. Amigos?
_Amigos. _ acariciei seus dedos. _ Você sabia que tem um batalhão de fotógrafos lá fora?
_É mesmo?
_É. _ ri. _ Vou tentar arrumar um jeito de te tirar daqui sem que te vejam.
_Por favor!
_Quem sabe a gente escape na calada da noite? _ propus.
_Isso. _ sorriu.
Era a minha linda Jeni com seu sorriso rosado e os olhos de quem me desconhecia. Lá no fundo, em algum lugar subterrâneo do seu coração, ainda estavam guardados os escritos de nossa história e eu a ajudaria achar.
Li Mendi
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Nuvens brancas. Paz. Sensação de ausência física. Silêncio e calmaria. A alma era apenas um estado de espírito sem ação material nenhuma que a revestisse.
Aos poucos, senti o levantar do meu diafragma e o ar enchendo os pulmões como se eu nascesse outra vez. Minhas pálpebras tremeram e um facho estreito de luz horizontal apareceu, depois, se ampliou e eu abri completamente os olhos.
_Minha filha! Ela acordou! _ ouvi uma voz ao meu lado.
Fechei novamente os olhos, sentindo que a luz me irritava as vistas.
_Enfermeira, enfermeira, ela acordou!
Abri as pálpebras com esforço e vi um rosto acima do meu.
_Filha, você pode nos ouvir?
_Posso... _ respondi, sentindo a voz sair pela primeira vez baixa e rouca da minha boca.
_É um milagre!
Meus dedos foram apertados por uma mão fria. Estava ainda muito fraca, como se eu fosse um corpo em câmera lenta, movendo-se em slow motion.
_Jeniffer... _ ouvi uma voz masculina. _Está nos ouvindo bem? Consegue falar?
Olhei-o. Agora conseguia distinguir mais claramente os detalhes da imagem antes embaçada e esfumaçada. Era um homem de jaleco branco e camisa azul por dentro. Tinha o cabelo grisalho caindo na testa. Sorriu.
_Oi..._ respondi.
_Estamos felizes de ter você aqui de volta! Sua mãe está ao seu lado.
Virei meu rosto para ela e tomei consciência de sua presença.
_O que faz aqui? _ perguntei, franzindo minha testa e sentindo a pele do meu rosto esticar com o movimento.
Ela tinha ido embora de casa. Por que voltara agora?
_Eu vim ficar ao seu lado, minha querida. _ sorriu e acariciou o meu cabelo, enquanto sua mão não se soltava da minha.
_Por que eu estou aqui...?
Ela olhou-me por alguns segundos, como quem não entende a pergunta e depois procurou os olhos do doutor do outro lado da cama para pedir ajuda.
_Jeniffer, qual a última coisa de que você lembra? _ o homem perguntou-me.
_Não sei... _ fechei os olhos, aquele esforço me deixava ainda mais cansada.
_Tente pensar em uma imagem, qualquer coisa. _ pediu ele.
_Eu estou em casa e meu padrasto saiu para trabalhar como sempre... _ respondi, lentamente.
_Claro. _ ele aceitou aquelas poucas imagens como respostas. _ Não precisa forçar, querida, aos poucos tudo vai voltar à sua mente.
_Mas o que aconteceu comigo para eu estar no hospital? _ perguntei, pois queria uma resposta para meu estado.
_Você se lembra do Ruan? _ minha mãe tentou ajudar.
_Não... Quem é Ruan? _fiz uma careta. _ Por que todo esse suspense?
_Jeniffer, você vai ter todas as explicações que quiser, mas só quando estiver mais forte para lidar com as situações. _ o médico me garantiu. _ Agora eu vou fazer alguns testes com você e quero que me responda o que sente.
_ ... _ não disse nada de volta. Estava terrivelmente confusa, como se minha cabeça fosse uma caixa com cacos de vidros que estivessem sendo chacoalhados.
_Você sente o quê? _ perguntou-me.
_Que está fazendo cócegas no meu pé. _ respondi com um sorriso. _ Apertando o meu dedão... Agora, o dedo mindinho.
_Que maravilha! _ ele vibrou em comemoração.
_Consegue levantar o seu braço? _ pediu.
_Sim... _ levantei-o, mas estava fraca para sustentá-lo no ar por muito tempo.
_Ótimo! _ ele sorriu e fez anotações na sua prancheta. _ Eu vou falar em particular com a sua mãe e depois ela ficará com você.
Eles se afastaram e eu ainda me senti sonolenta, com a cabeça pesada. Vi de canto de olho ambos conversando do outro lado do vidro que separava o quarto do corredor. Vez por outra, minha mãe olhava para mim e depois para o médico. Por que eles tinham um semblante de gravidade?
Minha mãe fechou a porta do quarto atrás de si sorrindo e puxou um banco para sentar-se ao meu lado.
_Mãe, você voltou?
_Voltei quando soube que você estava assim...
_E o meu padrasto, cadê? Ele sabe que estou aqui?
_Há muitas coisas que aconteceram enquanto você dormia.
_Vocês brigaram outra vez?
_Podemos falar só de você?
_É o que mais quero. Quanto tempo estou dormindo?
_Na prática, três semanas.
_Hum... três semanas._ repeti.
_Em teoria, um ano e meio. _ acrescentou ela, meneando a cabeça para o lado.
_Um ano e meio! _ senti um estado de pânico.
_Está tudo bem... _ ela apertou minha mão com força e a beijou.
Olhei para os meus dedos da mão esquerda e vi uma aliança.
_O que é isso? O que aconteceu nessas três semanas? Eu casei?
_Casou.
_Quê? Como? Eu ainda estou no colégio!
_Não, você já está na faculdade. _ ela corrigiu.
_Ai, meu Deus, eu não lembro de nada... _ senti vontade de chorar.
_Hei, hei, meu amor, está tudo bem, a mamãe está contigo. _ ela me abraçou e eu fiquei com as mãos no ar. Ela tinha voltado depois de tantos anos e eu nem conseguia digerir a situação ainda. Ao mesmo tempo, era a única pessoa de quem lembrava claramente e me sentia segura por isso. Deixei aos poucos minhas mãos repousarem em suas costas. _ Você vai lembrar de tudo, mas só aos poucos.
_Então, eu não lembro o que aconteceu de um ano e meio para cá?
_É. _ respondeu.
_E o que foi que se passou nesse tempo?
_Você se casou e... está grávida.
_Ãnh? O quê? _ quase gritei e senti meu coração acelerar. _ Não pode ser!
_Calma, querida, você vai ficar bem!
_Não, não, não posso estar grávida! _ olhei para minha barriga e vi uma pequena elevação no lençol. _ Nãããããão!
Aquilo não era uma doença que iria passar! Era uma criança dentro de mim e me assustava. Eu me sentia no corpo de outra pessoa, vivendo uma vida que não era minha.
_O seu marido é legal. Já pedi para avisarem que você acordou.
_Eu não quero ver. Eu não quero filho. Eu não...
Ouvimos um bip do aparelho ao meu lado e dois enfermeiros entraram no quarto às pressas.
_O que vocês fizeram comigo?! Por que estão brincando assim? Isso não se faz...
Minha mãe levou a mão à boca para não chorar e se afastou, dando passagem aos homens vestidos de branco. O médico voltou a entrar no quarto, olhou para minha mãe em repreensão e depois se inclinou sobre mim.
_ Está tudo bem, querida, tudo bem. Você vai se sentir sonolenta e vai relaxar, ok?
O enfermeiro voltou com uma vasilha de metal prateada e tirou de dentro uma seringa. Injetou-a no fio preso no meu pulso.
Novamente, a sonolência aumentou e eu relaxei. Podia ouvir e sentir tudo ao meu redor, mas meu corpo ficou sem receber ordens do meu cérebro. Respirei profundamente. Fiquei neste estado por uns quinze minutos. Depois, vi minha mãe, mais uma vez, quieta ao meu lado.
Eu não poderia estar grávida ou casada se nem ao menos tinha me apaixonado de verdade por ninguém. Era uma situação completamente ilógica e sem sentido.
Reclamei de dores nas costas e eles me colocaram sentada. Repousei as mãos sobre a cama e tentei não olhar para a minha barriga. Afastei o pensamento de que estivesse carregando uma criança no ventre.
Vi um homem atrás do vidro do quarto chegar. Ele tinha o cabelo raspado e era bem forte. Seus músculos apareciam na camiseta sem mangas. Vestia uma calça jeans preta. Abriu a porta e caminhou na minha direção.
Ele deve ser o meu marido! Seria o tal Ruan de quem minha mãe perguntara? Foi a conclusão mais rápida a que cheguei quando ele me chamou de seu amor.
Aquilo me deixou assustada. Não o conhecia, como poderia querer me beijar! Afastei meu rosto, queria correr de medo.
_Quem é você?
Li Mendi
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Parei novamente à porta do quarto de Jeni. Eu voltava ali para buscar uma imagem, um cheiro, uma lembrança boa que servisse de força para resistir. A cama já tinha sido arrumada por minha mãe e, à cabeceira, estavam os três cadernos. Sorri e caminhei até onde estavam. Abri a capa do terceiro que eu não tinha lido ainda e vi um cd. Franzi a testa.
Sentei-me e folhei-o. Era diferente dos outros. Não havia apenas descrições de amor como nos anteriores. Estava repleto de recortes de revista e jornal. Ri e olhei para o alto, balancei a cabeça para os lados.
_ “Você me conta toda noite ao jantar como foi seu dia. Mas nunca quis saber o meu em detalhes. Talvez, ache que seja só uma rotina chata de uma menina estudante”.
Jeni havia colado ao lado das letras escritas com caneta de tinta preta forte uma imagem de uma menina japonesa de saia plissada e meias brancas até o joelho com cara enfadonha sentada ao meio fio.
Ela estava errada, eu sempre quis saber sobre suas coisas. Eu só vivia ocupado demais. Julgava que poderia deixar para depois... ou... Droga! Ela estava certa, eu pensava que seu dia era sempre igual! Por que eu fui tão egoísta?
Deitei-me e apoiei a nuca na mão, flexionei uma das pernas e segurei o caderno em cima da minha barriga. Minha mãe, que passava pelo corredor, espiou para dentro do quarto, perguntou se estava tudo bem. Eu fiz que sim e ela olhou mais um pouco para se certificar de que era verdade. Voltei a olhar as gravuras e os textos escritos por aquela fina caneta preta. Letras compridas e bem desenhadas como nos convites de casamento.
_ “Mas nem um dia para mim é igual, pois a minha rotina é muito diferente do que eu poderia imaginar que seria. De uma hora para outra mudou completamente ao te conhecer. Tudo é novo, é bom, é mágico!”
Queria poder confessar-lhe o mesmo agora, para mim também tudo havia se tornado mais proveitoso ao seu lado. Como me fazia uma imensa falta!
_ “Por isso, queria te convidar que fizesse comigo uma viagem pelo meu dia. Mas tem que levar isso a sério!”
Ri ao ver a foto que ela tirara dela mesma me encarando de lado e colara na página, fazendo pose de desconfiada. Estava linda. Ela era louca! Incrivelmente louca.
_Aonde você vai? _ minha mãe perguntou, quando passei por ela na cozinha.
_Vou dar uma volta. _ beijei-lhe a testa.
_Vai ao quartel? _ perguntou.
_Não. _ respondi e peguei as chaves do carro.
Sentei-me ao volante e abri o caderno.
_ “Como eu não saio de casa sem os meus fones, gravei para você algumas músicas que será sua trilha sonora.”
Tirei o CD que Jeni havia colocado dentro de um envelope na contra-capa. Introduzi-o no Player do carro. _ “Eu comecei a ouvir suas músicas e gostei de algumas. Aprendi tantas coisas vasculhando seu mundo de livros, revistas antigas, filmes e Cds. Agora quero te mostrar o meu universo.”
_Hum... Norah Jones? _ falei alto para mim mesmo. _ Boa escolha, garota! _ liguei o carro.
Parei no primeiro sinal de trânsito e coloquei o caderno sobre o volante.
_ “Essa música fala sobre por que ela não foi com ele. Não que seja meu caso. Eu te segui e lutei por nosso amor. Mas, a cada vez que eu a ouço, me faz pensar sobre não deixar de fazer nada do que eu desejo. Sente como é gostoso o som do piano? Deixe a música invadir todo o seu corpo”.
Um carro buzinou atrás de mim, pisei no acelerador e guiei para o Centro da Cidade. Jeni colara em uma das folhas um mapa repleto de setas coloridas com canetinha hidrocor. Elas indicavam o caminho que eu deveria percorrer. Segundo explicara, depois das aulas na faculdade, começou a andar pelo Centro para conhecer os pontos históricos. Alguns eu já conhecia, mas hoje queria estar na pele dela. Isso parecia loucura, uma criancisse. Eu apenas gostaria de me afastar por completo daquele clima de tristeza que me perseguia durante as três semanas em que ela estava no hospital.
Eu havia sido liberado do trabalho por completa impossibilidade de me concentrar. Tirei uns dias para me refazer por aconselhamento médico. Eu estava entrando em depressão e a psicóloga me mandou para casa.Por isso, aquele passeio era importante. Fazer coisas diferentes com a companhia de Jeni me levantaria o astral.
Estacionei o carro e fiz o caminho a pé para poder ver tudo que ela queria que eu visse. Trouxe comigo o caderno de capa vermelha.
_ “O Centro do Rio de Janeiro é repleto de livrarias, praticamente em todas as ruas você vê uma delas. São todas bem iluminadas, com televisões, sofás aconchegantes, cafeterias e uma música ambiente deliciosa. Mas, a que mais me atrai é a “Livraria da Travessa”, refiro-me a que fica na Avenida Rio Branco, porque também existe uma na Travessa do Ouvidor. Ela está em um prédio antigo, feito de pedras cinzas e no segundo andar há diversos quadros grandes em preto e branco maravilhosos! Sente-se aí e tome um café”.
Olhei para o prédio. Realmente... As pedras, a vitrine, a iluminação amarelada, o cheiro, a música de fundo... Tudo ali na minha frente!
Sentei-me e pedi um café como ela indicara.
_ “A vida nos permite ser tão felizes e muitas vezes nós apenas focamos no que ainda não temos. Já parou para pensar como esperamos um pouco mais para finalmente sermos felizes? Devíamos aproveitar com mais sabor cada instante. Sinta a paz que está agora ao seu redor. Você pode caminhar até aqui porque tem duas pernas, pode olhar para essas pessoas aí embaixo folheando os livros porque pode enxergar. Andar e enxergar é uma dádiva, mas pensamos que faltam ainda os óculos de marca ou o tênis de marca. Os acessórios são vendidos como o tesouro máximo. E trabalhamos e nos matamos para tê-los. A vida segue passando...”
_ “Agora, caminhe por toda a avenida Rio Branco e você verá à sua frente cruzar a magnânima Avenida Presidente Vargas. Para construí-la, foram demolidos os cortiços e casebres antigos que se espremiam nas vielas apertadas que havia aí, nos anos de 1950. Eles abrigavam a zona de meretrício. A sua próxima parada será a Igreja da Candelária. Independente de credos, é impossível não entrar e contemplar a beleza da obra. Uma arquitetura esplêndida que irá te fazer olhar para o teto e ficar de boca aberta.”
Olhei para a imagem que ela havia colado no caderno e depois para a fachada da igreja. Entrei. Realmente foi como tinha descrito. Ao ver a suntuosidade da decoração eu fiquei me sentindo muito pequeno. Sentei-me no banco.
_“É incrível como, no coração do Centro do Rio de Janeiro, você pode sentir a paz e a quietude nas dezenas de igrejas. Feche os olhos e fique em contato com Deus. Aproveite este momento único de estar imerso no nada. Sem pensar em futuro, nem passado. Se sinta preenchido pelo clima de quietude e a música do canto gregoriano”.
Deixei minhas pálpebras caírem e a voz dos monges cantando me elevou para um real estado de contemplação do meu interior. Um nó se fez em minha garganta. Imaginei que Jeni já esteve ali e talvez nunca mais viesse a retornar. Pedi a Deus que isso não acontecesse. Disse-lhe que a queria de volta para mim. As lágrimas escorreram por meu rosto. Eu precisava chorar para desagüar aquele sentimento. Depois, respirei profundamente e me senti mais leve, renovado.
Era hora de continuar o percurso:
_ “Continue pela Rio Branco, que cruza a Avenida Presidente Vargas. Veja como as pessoas atravessam as faixas de trânsito como um formigueiro humano. As gigantescas bancas de jornal, repletas de revistas, livros, periódicos internacionais e muitas publicações de mulheres peladas. Essas você não olha!”
Ri e balancei a cabeça para os lados. Ela era tão divertida. Saudade de provocá-la pelo puro prazer de ver sua carinha de brava.
_ “Você passará por um Mc Donald’s de dois andares que fica na esquina de uma rua. Mas hei, antes dele há mais coisas. Assim como você, eu também sempre andei apressada e não olhei direito pelas pequenas ruelas transversais à avenida. Há o Espaço Cultural dos Correios à sua esquerda, à Rua Visconde de Itaboraí. Já vi aí uma belíssima exposição do grande fotógrafo Cartier Bresson. Mas para falar dele para você, quero que antes você pare na Casa do Pão de Queijo que fica à Rua Sete de Setembro. Te aconselho que peça um cappucino. Mas se o dia estiver quente, peça um suco de abacaxi com hortelã que é divino. A mulher irá te perguntar se é com açúcar ou sem. Lembre-se que quando ela fala com açúcar é realmente com muito açúcar mesmo! Por isso, escolha sem açúcar e depois que ela bater no liqüidificador, aí você pede um sachê de açúcar para você mesmo dosar o tanto que quer. Depois, sente-se em um daqueles bancos altos que ficam ao lado do balcão de frente para a parede de vidro que dá para a rua. Veja o movimento das pessoas bem arrumadas. Os homens de ternos e as mulheres de meia fina e salto de bico, aqueles de matar barata no canto”.
_Com açúcar? _ perguntou-me a mulher.
_Sem, por favor. _ disse-lhe sorrindo ao lembrar da indicação de Jeni.
Sentei-me com seu caderno diante do vidro transparente e bebi meu suco. Muito gostoso mesmo! Queria poder tê-la ali ao meu lado para beijar-lhe os lábios molhados e dizer que era muito melhor o beijo que o suco. Ao passo que diria que eu estava mentindo.
_ “Eu ia lhe falar do fotógrafo. Pois bem...”
No caderno, havia dezenas de ilustrações impressas das obras do artista. Certamente, esse tinha sido o fim das tintas para a impressora que eu comprara! Mas valia a pena. Ela escrevera tudo bem detalhadamente no meio de tantos recortes e colagem.
_ “Ele veio de uma família pequeno burguesa parisiense e dizia que iria ser pintor. Aos 17 anos, ganhou de presente uma câmera e começou a fotografar na fazenda do tio o cultivo da cana de açúcar. O que lhe inspirou o interesse pela fotografia foi a foto Meninos Negros à Beira do Lago Tanganica (1931), de Martin Munkacsi. O movimento das crianças correndo em direção à água sensibilizou Bresson para o poder da imagem fotográfica. Eu vi um filme sobre ele chamado Ponto de Interrogação, em que aceita fazer um bate-papo sobre as impressões de seu trabalho. Muito tímido, pede para que a luz de um dos refletores seja tirada de cima dele. “A penumbra é muito mais íntima”, explica. Essa intimidade presente entre a penumbra e a luz é tão bem representada nas fotos preto e branco de Bresson, que não fotografava em cor. Por mais que a cor seja uma representação que aparente uma reprodução mais natural, ela tenderia facilmente ao superficial e ao mecânico.
“Tirar uma foto é como reconhecer um evento e naquele exato momento e numa fração de segundo, você organiza as formas que vê para expressar e dar sentido ao evento. É uma questão de pôr o cérebro, o olho e o coração na mesma linha de visão. É uma forma de viver".
Como ela sabia de tudo aquilo? Ela leu? Pesquisou? Viu exposições? Onde estava essa Jeni que eu subestimara? Eu estava simplesmente estava maravilhado! Não conseguia parar de folhear as páginas coloridas com setas e observações.
_ “As fotos de Bresson instigam a imaginação. Seu poder de captar a imagem síntese, que diz por si só, sem precisar de mais legendas, ou explicações, nos leva a profundas reflexões, uma vez que o trabalho geométrico e a sensibilidade com que as cenas são aprisionadas nos remetem a uma introspectividade. Quando vejo as suas mais simples fotos de pessoas de olhar perdido, sentadas em poltronas ou cadeiras, me pergunto; “o que elas pensavam?”, “Quais eram suas preocupações?”, “Quais eram suas dores?”. O fotógrafo conseguia captar um momento em que a pessoa se entregava à suas próprias reflexões e se esquecia da máquina. O resultado disso é uma foto que para mim funciona como um rádio, que me leva a imaginar as vozes mentais dessas pessoas silenciosas.
Esse efeito de ressonância entre a imagem e a experiência de vida de cada um é o que Bresson mais valorizava quando dizia que a fotografia lhe atraia por esse poder de despertar o inconsciente. Pois o importante no retrato não era a expressão, para ele o mais interessante de se captar era justamente o silêncio.
Cartier, que era um a admirador dos cientistas por estes não acreditarem em tudo e estarem sempre renovando suas teorias, dizia que o principal não eram as respostas, mas as perguntas e, certamente, isso fica impresso no seu trabalho. Ao observar uma de suas fotos em que um homem com uma perna só anda de muletas diante da ruína de uma construção, eu encontro uma resposta para o que é isso: uma pessoa que está tão destruída fisicamente como os próprios escombros do seu país. Mas também surgem muitas perguntas para o por quê disso: Por que o homem é capaz de destruir o seu igual?, Por que ele acha que a cor da pele ou a diferença de religião pode formar categorias do bem e do mal? Sucessivamente, as inquietações vão surgindo a partir da imagem daquele aleijado.
Cartier sabia que o visor de sua máquina tinha a capacidade de captar as pessoas nuas, não fisicamente, mas no seu íntimo psíquico e, muito consciente disso, Bresson não gostava de ser fotografado. “Não gosto que façam comigo o que faço com os outros”, explicou. Sobre as imagens que vira em vida: na guerra, na sua estada num campo de concentração alemão por três anos, no cotidiano em meio ao cidadão comum e ou entre as pessoas famosas, Cartier afirmou: “Não posso mudar nada do que vi, mas o que vi me mudou”.
Uau! Eu não tinha idéia de quem era aquele cara, mas pelas palavras de Jeni pude navegar em seu mundo. Por uns instantes, esqueci de todos os meus problemas! Aquele dia estava sendo incrível e eu não queria parar! Eu não podia mudar a realidade horrível de Jeni estar ligada à aparelhos, da mulher da minha vida estar praticamente morta, mas tudo que ela estava me fazendo ver certamente me mudava!
_ “Se caminhar por toda a rua Sete de Setembro, irá ver mais livrarias, uma grande floricultura ao ar livre e, por fim, duas igrejas antigas lado a lado. Uma delas acabou de ser reestaurada, me refiro a que não tem uma cúpula redonda. Do outro lado da rua, você verá uma estátua grande de Tiradentes, ela fica diante da escadaria do Museu Tiradentes. Ao lado dele, pasme, mais outro museu! Esse agora chamado de Paço Imperial. É ali que a Família Real Portuguesa ficou quando veio para o Brasil.Ele foi construído no século XVIII. Ainda aí na Praça XV, você encontrará o Museu Histórico Nacional e nos seus jardins interno, cheio de antigos canhões vai ser remetido ao Brasil Império. Não deixe de caminhar por cada canto desse museu. Os vestidos ricos em pedras, as jóias, todas as relíquias do Império. Fabuloso! Voltando para a rua mais uma vez... Aos sábados, existe uma feira fantástica de antigüidades mais alguns metros à sua frente. Umas duzentas pessoas estendem suas toalhas no chão ou levantam suas barracas. Há de tudo: relógios, critais, livros, quadros, roupas, objetos de decoração, perucas, tudo mesmo que possa imaginar. É a coisa mais rica que já vi! Agora, siga pela Primeiro de Março e chegue ao Centro Cultural Banco do Brasil. Foi ali que tivemos aquele encontro doloroso em que me revelou que era Daniel e me entregou a rosa.”
Queria que ela estivesse ali, sob a cúpula gigante do CCBB, para eu lhe dar um beijo. Abraçar forte e dizer que não importava nada, pois a amava.
_ “Ao lado do CCBB, há a Casa França Brasil, construída em um estilo neo-clássico. Já te levei a museus demais. Mas é que eles ficam um ao lado do outro. Você começa a entrar e sair e não consegue parar. São fantásticos! A televisão fala da violência, dos mortos, das balas, dos tiroteios, dos assaltos. Mas o Rio de Janeiro é belíssimo! É vivo, é culturalmente riquíssimo! Já te mostrei alguns dos museus do Centro. Agora, perto daí, está o suntuoso e magnífico Teatro Municipal, ele foi uma reprodução do Paris Opera House.”
Olhei a bela imagem que ela havia colado no caderno e quis ver de perto se era tão lindo quanto mostrava. Segui as setas do mapa e, mais uma vez, me senti minúsculo perante a obra faraônica do Teatro. Agora, eu começava a entender o que os estrangeiros buscam quando vêem ao Rio de Janeiro. _ “Há tantos e tantos lugares que você precisa conhecer. Não há como não parar nas lindas vitrines da mais antiga confeitaria... A tão famosa Confeitaria Colombo, que várias novelas de época da Globo já retrataram! Depois, passar pelos Arcos da Lapa e pegar o bondinho para seguir até Santa Teresa com seus bares maravilhosos! Há uma riqueza incrustada em cada rua que foge ao que todo mundo conhece pela televisão. É preciso caminhar e respirar, sentir, tocar, olhar a cultura saindo pelos poros da cidade!
Eu já andei tanto por essas ruas. Descobri cada coisa. Se há dezenas de livrarias, não imagina o que significa a dimensão das bibliotecas. A maior de todas é a Biblioteca Nacional. São andares inteiros de cultura. Você que gosta dos livros antigos, não vai ter vontade de sair de lá!Se pensa que isso é tudo,encontrei um verdadeiro tesouro da cultura no Real Gabinete de Leitura. Levante seus olhos para o alto, perceba a noção do todo, os mínusculos corredores entre as prateleiras. Quando olhei o prédio do lado de fora, não imaginei que ali dentro havia mais de 350 mil títulos. O maior acervo português fora de Portugal."
Era de fato um verdadeiro templo de cultura. Nunca tinha visto aquela cena, parecia irreal tantos livros em um só lugar! Senti como ela havia dito uma vontade de não sair mais de lá! Era tudo tão perto. Um museu ao lado do outro. A cada vez que se atravessava uma rua ou cruzava uma esquina via uma igreja barroca, uma livraria ou algum centro histórico.
Voltei para o meu carro renovado, com uma injeção de ânimo, sorrindo até. Já caía a tarde e as luzes acenderam o Rio de uma maneira que nunca havia reparado. O trânsito estava horrível. Folheei sobre o volante, a cada sinal, alguns outros trechos do caderno. O Cd ainda tocava Norah Jones, “Thinking about you”.
_ “Veja como há uma vida maravilhosa pulsando! Quando os problemas começarem a acontecer na sua vida e se sentir despencando de um desfiladeiro, pense que não importa a queda, mas que escale tudo outra vez. Levante-se!”
Meu celular tocou. Eu sabia que não era certo atendê-lo no trânsito, mas parado no meio daquele engarrafamento não faria mal à ninguém.
_ Alô?
_Senhor Ruan?
_Sim.
_É do hospital onde sua esposa está internada.
_Como ela está? O que houve?
_Ela acordou.
_... _ eu senti o mundo parar mais uma vez. Eu tinha ouvido aquilo mesmo ou era força do meu pensamento?! Minhas preces tinham sido ouvidas. _Obrigado por avisar, estou indo para aí.
Desliguei o telefone e quis gritar. Era só alguém no meio do trânsito caótico, em cima do elevado da Perimetral. Olhei à minha direita a Igreja da Ilha Fiscal toda iluminada de luzes verdes, flutuando sobre o oceano negro como a noite. Eu estava sorrindo, feliz como nunca.
Estacionei o carro na rua do hospital. Identifiquei-me na recepção e depois corri pelos corredores com o coração na boca, parei diante da porta do quarto de Jeni e mal podia me conter. Ela estava de olhos abertos e levemente reclinada no travesseiro. Uma enfermeira verificava seu soro.
Sorri e enchi os pulmões de ar, perdi a voz, era muita emoção de uma só vez:
_ Meu amor! _ segurei sua mão e me inclinei para beijá-la.
Ela levantou o braço, tocou o meu peito e fez uma careta. Afundou seu rosto no travesseiro e se afastou de mim:
_Quem é você?
Li Mendi
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Eu não sei até que ponto Elisa abriu a boca, mas não se pode também subestimar a potencialidade investigativa dos jornalistas, nem a falta de pudor das fontes anônimas que dissecam a sua vida na sombra e a oferece de bandeja. Comecei a ser perseguido por onde ia por um bando de repórteres ávidos para verem em mim sofrimento, indignação. Queriam colher qualquer frase contra as políticas públicas de segurança ou contra algum político. Eu pouco estava interessado sobre os objetivos deles, não ia fazer camiseta com a foto de Jeni e parar o trânsito do Centro do Rio com alguma passeata. Eu só queria paz!
Mas, cheguei no auge e saí do sério quando uma jornalista bateu à minha porta de casa. Ela tentou me convencer de que seu editor tinha um ótimo intuito de me colocar em cadeia nacional, no horário nobre, para ser entrevistado ao vivo pela âncora mais famosa a fim de recontar os fatos.
_ Você tem filhos? _ perguntei.
Ela respondeu rapidamente, sem pensar:
_Tenho dois.
_E é você que cuida deles? _ pressionei-a.
_Bom... _ ela parecia não entender aonde eu queria chegar, mas se fosse para conseguir uma entrevista comigo, então, responderia qualquer coisa. _ ... Eles ficam com a minha mãe.
_Hum... _ cruzei os braços. _ ... Então, você é separada?! _ fiz uma cara de grave e pus a mão no queixo. _ Por que ele te deixou?
_Hei, você está sendo invasivo. _ ela riu nervosa e constrangida.
_Eu? Ora... _ peguei o gravador da sua mão e apertei um botão qualquer, coloquei-o próximo à sua boca. _... Por que não falamos de você? Vamos lá! Diga aí, qual o motivo de você ser uma mãe solteira frustrada, vamos, vamos falar dos seus problemas! Você tem que bancar as contas porque seu ex não está nem aí?
_Pára! _ ela gritou.
_Percebe? Isso é invasivo para mim também! _ entreguei o gravador em sua mão com um movimento brusco. _ Já imaginou, amanhã, todas as suas amigas acordando e abrindo o jornal para ler uma matéria sobre a sua intimidade? Tomando café e se deliciando com sua vida privada? Ou, melhor, já pensou, elas comendo macarrão, sentadas com o prato no sofá, enquanto assistem a sua vida na televisão?
_Esse é o meu trabalho! _ tentou se justificar, já com os olhos cheios de lágrimas. _ É por isso que sempre odiei os militares. _ soltou aquela pérola.
_Hei... _ peguei-a pelo braço, quando ameaçou sair. _ ... O problema é que nós “os militares” temos ainda um pouco de ética. A gente sabe preservar a moral e os bons costumes. Aqueles valores que vocês, “os liberais”, acham que não têm mais fronteiras.
_Você tem o seu emprego garantido e eu? O meu depende desta merda de matéria! _ explodiu, descontrolada.
_Hei, espere. _ pedi. _ Eu até te entendo. Sei que você sofre pressões. _ suspirei. _ Mas, o seu editor não está querendo oferecer nada aos leitores com o intuito altruísta de lhes dar esperanças ou coisa que o valha. O seu patrão quer manter em alta a publicidade do jornal. Vasculhar a minha vida pessoal e o meu passado não ajuda a vida de ninguém. Eu espero que você não publique o que eu vou dizer, mas... eu tenho uma mulher que amo e ela está inconsciente. O meu filho que ela espera pode morrer se ela morrer também. De uma hora para outra, aquilo que eu sempre esperei ter foi colocado em risco. O mundo caiu sobre mim e o mínimo que eu peço é justamente ficar em paz para enfrentar tudo isso.
_Desculpe. _ ela abaixou a cabeça e saiu.
Fechei a porta de casa, o telefone tocou e deixei que minha mãe atendesse. Eu não queria mais ver televisão, nem ler jornal, ou navegar pela Internet. Minha vida se espalhou como um vírus potente. O veículo que não divulgava uma nota sequer sobre o caso do seqüestro parecia estar recebendo o furo mais vergonhoso da história do jornalismo!
O médico respirou fundo, depois olhou para os óculos que segurava na mão e levantou as sobrancelhas grossas e grisalhas:
_Você pode me acompanhar até a minha sala? _ pediu, esticando o braço para tocar o meu ombro.
Não disse nada, apenas aceitei sua indicação do caminho e deixei para trás Fonseca e minha mãe. Caminhamos por aquele corredor frio e com um forte cheiro de éter. Entramos na terceira porta e ele sentou-se à mesa.
_Seu nome é Ruan, certo? _ olhou na ficha em sua mesa e folheou os papéis em que eu tinha dado entrada no hospital.
_Doutor, se puder me dizer logo o que está acontecendo... _ pedi, com as mãos entrelaçadas e apertadas entre os joelhos unidos, nervoso e muito ansioso.
_Meu rapaz, acho que a sua mulher é muito forte. Ela perdeu bastante sangue...
Isso tudo eu já sabia! Mas não o interrompi, afinal, se era realmente preciso aquela introdução com tanta redundância para que eu pudesse agüentar o que viesse depois, então, que eu só ouvisse.
_Nós conseguimos retirar o projétil e também monitorar o bebê durante a cirurgia para que ele também ficasse bem. Eram duas vidas em nossas mãos!
_As vidas mais importantes para mim agora.
_Eu imagino. Soube pela enfermeira que ela passou por um seqüestro e isso deve ter sido horrível para vocês.
_Realmente, foi um grande trauma que eu nem sei ainda os efeitos porque sinto que a ficha não caiu. Parece que ainda estou em estado de tensão máxima e uma hora vão desligar a tomada e eu vou cair.
_Por isso aconselho que descanse. Pois bem, Ruan, como eu dizia, sua esposa está viva, mas ela não está consciente. Ela, mais precisamente, está em um estágio comatoso.
_Em coma? _ repeti aquilo. Eu não sabia o que era aquele estágio comatoso, mas, se fosse o que eu conhecia de coma, ela estava vegetando? É isso?! Tentei não me desesperar antes que ele pudesse terminar. _ Como assim? Não disse que ela está viva, que...? _ não agüentei e comecei a fazer perguntas.
_Ruan, ainda temos muito que estudar na medicina sobre a complexidade da mente humana. Os neurocientistas se debruçam sobre este tema há anos e ainda sinto que mal começamos. Mas, eu vou tentar te explicar de maneira bem simples o que já sabemos até então. O coma é uma lâmpada que tinha um brilho bem forte, mas, de repente, por algum motivo, ficou muito fraca. Tecnicamente falando, é um rebaixamento do nível da consciência.
_Ela está igual um vegetal? Já ouvi falar sobre isso no período em que a imprensa debateu o caso da Terri Schiavo.
_Não! Não! _ ele abanou a mão direita no ar em sinal de enfática negação. _ As pessoas confundem mesmo. O cérebro tem uma parte que funciona no “piloto automático”, como, por exemplo, o estado de sono e de vigília, os reflexos de sucção, reação do acompanhamento do olhar e muitos outros. No coma, sobra esse automatismo do cérebro e a pessoa continua respirando e o sangue sendo bombeado pelo coração. Mas, no estado vegetativo a pessoa, não tem essas funções voluntárias, precisa dos aparelhos para mantê-la viva. No coma, a pessoa pode voltar depois de anos!
_Anos? _ repeti aquilo, quase sem voz. Eu estava desolado.
_O caso que mais me surpreendeu na história da medicina foi de um homem que parece com o nome da Terri que você citou. Mas é com “y”, se chama Terry Wallis. Ele, hoje, tem cerca de 40 anos. Mas, em 1984, pegou carona com um amigo e o carro caiu em um riacho. O amigo morreu e ele ficou em coma por 19 anos! Acredite se quiser, ele acordou. E a sua filha, que tinha nascido alguns meses depois do acidente, tem 19 anos ou 20 anos agora... já perdi um pouco as contas. _ ele riu amistosamente.
Para mim, nada tinha graça. Eu não queria criar o meu filho sozinho.
_Mas, peraí, se ela está em coma, como fica o bebê?
_Isso é que vamos tentar fazer de tudo para resolver. Temos que manter suas condições vitais para que termine de gerar o bebê. Ruan, ela pode acordar daqui uns dias, daqui meses, anos...
_Ou nunca mais?
_Isso só o tempo dirá. Os médicos não salvam, eles só aliviam as dores, meu rapaz. _ explicou humildemente. _ Eu vou perguntar se já pode vê-la.
_Tudo bem. _ levantei-me.
_E... _ ele pareceu ter esquecido de alguma coisa quando girou a maçaneta da porta. Virou-se para mim. _... As pessoas em coma podem ter reflexos, apertar a sua mão quando tocá-la, abrir e fechar os olhos, mexer a cabeça... Mas, isso não significa...
_Já entendi, são reflexos voluntários que ela não controla?
_Exato. _ ele deu-me um tapinha nas costas e apoiou a mão no meu ombro. _ Você pode voltar para a sala de espera que eu peço para uma enfermeira avisá-lo.
_Obrigado. _ apertei sua mão.
Fui recebido pelos olhos apreensivos de minha mãe. Tentei repassar-lhe tudo que o médico me dissera. Logo em seguida, chegou Fonseca com uma roupa para eu vestir que fora buscar em minha casa à pedido da minha mãe. Dei-lhe as últimas notícias. Depois, foi a vez de repetir tudo à mãe de Jeni, que se encarregou de bom agrado de comunicar à imprensa.
Procurei um banheiro para trocar de roupa. Lavei os braços e o rosto. Sequei-os com a toalha de papel e a joguei no lixo. Voltei para a sala de espera.
_Você é o marido da paciente Jeniffer? _ a enfermeira aproximou-se de mim. _ Pode me acompanhar?
_Claro. _ levantei-me e a segui.
Passamos para uma área silenciosa do hospital. Um corredor vazio e comprido que trazia uma sensação de opressão. Pus as mãos no bolso, acuado. Uma parede com a metade superior de vidro me separava agora do quarto onde Jeni estava. A enfermeira abriu a porta para que eu pudesse entrar. Deixou-nos à sós.
_Meu amor... _ toquei na sua mão delicadamente. _ ... Eu vou estar com você. _ inclinei-me sobre ela e beijei-a na testa. _... Dorme o quanto for preciso para você se recuperar e cuidar do nosso menino. Ele vai ser muito bagunceiro, sabia...? _ afastei com as pontas dos dedos os fios do seu cabelo para o lado. _ ... Você vai precisar de muita energia para agüentar o pique!
Os dois primeiros dias eu fiquei ao lado dela. A enfermeira aconselhou-me a ir para casa descansar. Eu lhe disse que me sentiria culpado se a deixasse.
_Nós cuidaremos bem da sua esposa. Não há nada que possa fazer diretamente para ela sair do coma. Eu já vi muitos casos e sei que pode demorar um tempo. É hora de pensar em se restabelecer para enfrentar tudo com mais forças. Senão, vou te ver naquela maca ali daqui a pouco e não estou a fim de te dar banho, hen?!
Eu ri e balancei a cabeça para os lados. Ela estava certa.
_Vocês me ligam se...?
_Claro, será a primeira coisa que faremos!
Antes de sair do quarto, ainda olhei Jeni por um instante. A enfermeira me fez um sinal de que tudo ficaria bem e sorriu. Suspirei.
Chegando em casa, senti que estava sem forças, caí na cama e ainda ouvi minha mãe perguntar se eu queria comer alguma coisa.
_Senhor, ela está viva... _ o policial colocou os dedos no pescoço de Jeni antes de mim e depois deu dois tapinhas no meu ombro. _... Vamos conseguir salvá-la. _ garantiu.
Peguei-a no colo e estava fria. Eu não tinha pernas para andar, perdi completamente a noção das forças, estava desnorteado. Mas precisava trazê-la de volta à consciência!
A ambulância que ficara parada alguns quilômetros antes para não chamar a atenção dos seqüestradores já estava à beira da estrada nos esperando.
Eles começaram a fazer os procedimentos necessários e eu só pude me manter afastado. Jeni foi completamente imobilizada e verificaram sua pressão. Injetaram soro em sua veia. Acompanhei-a na ambulância até o hospital, mas, chegando lá, não pude seguir os médicos que a carregaram na maca para a sala de cirurgia.
Minha mãe me segurou pelo braço.
_Calma, Ruan. Confia em Deus.
Eu comecei a andar à esmo, alucinado. As pessoas na sala de espera ficaram assustadas.
_Ela está quase morrendo! _ eu disse.
_Não está! _ minha mãe segurou meu rosto com as duas mãos e seus olhos estavam cintilantes de lágrimas. _ A Jeni é forte!
Mordi o lábio inferior por dentro, respirei fundo e encostei-me à parede. Minha roupa estava suja com o sangue dela. Eu parecia ter saído de um campo de batalha. Abaixei-me e fiquei agachado, olhando o chão. Não queria acreditar no que estava acontecendo.
_Ruan! _ ouvi a voz de Fonseca.
Levantei-me e ele me abraçou com força:
_Vai dar tudo certo, cara!
_Ela levou um tiro no ombro, perdeu muito sangue e o bebê... Eu nem sei do nosso filho... _ falei desesperado.
_Precisa ter forças, precisa acreditar, Ruan!_ Fonseca colocou as duas mãos nos meus ombros. _ Não pode pensar negativo, não pode! _ falou firmemente.
_Eu sei, eu sei, não posso. _ suspirei.
Sentamos na cadeira e as horas me pareceram intermináveis. A espera torturante só foi interrompida pela chegada de uma mulher que parou na minha frente:
_Você pode nos conceder uma entrevista?
Olhei para ela e para o homem que entrava com uma câmera.
_Não! Eu não quero falar nada, eu não quero que o meu sofrimento sirva de pauta para entreter as pessoas durante o jantar, enquanto assistem ao telejornal!
_Calma, Ruan. _ minha mãe tomou partido da situação. _ Por favor, compreenda que esta é uma situação complicada...
Quando dei por mim, vários jornalistas surgiram como abelhas furiosas que zumbem em nossas cabeças.
_Ele não quer falar, respeitem! _ Fonseca afastou-os para fora da área de emergência e disse algumas palavras a fim de que se contentassem com suas informações e não me perturbassem.
_Bando de urubus em cima da carniça! _ resmunguei.
_Ruan, eles estão fazendo o trabalho deles. _ minha mãe defendeu-os. _ Não ligue para isso. _ colocou sua mão sobre a minha e entrelaçou seus dedos. _ Meu filho, eu nunca gostei da mãe dessa garota. Olha que ironia, você se apaixona pela filha dela. Mas, a menina não tem culpa de nada. Além do mais, ela é encantadora. Eu também estou de coração partido. Tenho fé de que tudo vai ficar bem.
_Eles não saem para dar nenhuma notícia! _ reclamei baixinho.
_Essas operações são muito delicadas, demoram mesmo, meu filho. Calma! Vou pegar um copo de água ali para você.
Eu me senti indefeso, como um menino que está prestes a tomar uma vacina e morre de medo. Tenho medo demais do que pode acontecer, mas não à mim e sim à minha Jeni.
_Como ela está?! _ ouvi a voz de Elisa vindo de trás de mim. _ Quero ver a minha filha.
Olhei-a agora nos olhos sem lhe responder nada.
_Fala alguma coisa! _ empurrou-me para trás e me balançou.
_Estão tentando salvá-la! _ disse-lhe e levantei-me.
_Não, não pode ser, isso não está acontecendo! _ ela começou a chorar e sentou-se. _ Você acha que ela agüenta...?
_Se ela não agüentar, eu não sei o que será de mim...
_Você deve estar arrasado. _ ela levantou-se e veio abraçar-me, mas minha mãe se intrometeu, inesperadamente, no meio.
_Soube da sua filha pela televisão, Elisa?!
_Não quero arrumar problemas com a senhora. Eu estou no meu direito...
_Devia ter lembrado desse direito antes! _ minha mãe olhou-a de cima abaixo e depois me entregou o copo de água.
_A senhora é a mãe dela? _ uma jornalista se aproximou.
_Eu disse que não quero que nada saia na televisão! _ segurei o pulso da mulher que estava com microfone.
_Que isso, Ruan? Eu posso falar com ela! _ Elisa foi engolida pelo círculo que se formou ao seu redor de câmeras, microfones, flashs e gravadores.
_Eu não estou acreditando nisso! _ balancei a cabeça para os lados e fiquei com as mãos na nuca.
_Ignore ela! _ Fonseca aconselhou-me. _ Só o que importa agora é a sua esposa!
Vi um médico caminhando na minha direção. Adiantei-me para que os repórteres não percebessem. Estavam entretidos com Elisa.
_Como ela está?! _ perguntei.
_...
_Ela está viva?
_Está.
Eu respirei fundo, sentindo uma descarga de alívio percorrer o meu corpo.
_Eu não disse? _ Fonseca deu um tapinha nas minhas costas e manteve sua mão no meu ombro, minha mãe segurou meu braço.
_O bebê, milagrosamente, está bem e vai ser um menino bem forte! _ sorriu, mas senti que aquilo não era tudo.
Às vezes, o ambiente e as condições das intempéries podem acabar com seus planos. O terreno e o clima viram o seu inimigo e limitam suas forças. Em outras ocasiões, eles se tornam seus aliados. Eu só tinha a agradecer por estar em vantagem dessa vez.
Os agiotas escolheram uma estrada pouco movimentada para me entregarem Jeniffer e pegarem o dinheiro. Só havia o sol da tarde, o asfalto, as rochas e o matagal de ambos os lados. Só? Não! Em vários pontos, atiradores de elite foram colocados camuflados entre a paisagem para garantirem a operação.
Eu olhei o relógio e vi que estavam atrasados cinco minutos. Não iriam desistir daquele dinheiro que me custaria muitos anos de trabalho futuro para pagar, a menos que eles tivessem desconfiado de algo. O que não acredito, afinal, fizemos tudo milimetricamente planejado para que nada desse errado. Não importa, eu iria para um campo de trabalho escravo se fosse necessário para juntar o dinheiro que eles queriam em troca da vida da mulher que eu amo.
Segurei a maleta na minha mão esquerda. Eu continuava impassível, ereto, vendo um e outro carro passar por mim. Os motoristas olhavam preocupados, estranhavam aquela figura na beira da estrada parada com o carro no acostamento.
Algumas pessoas e, principalmente, as mulheres costumam disseminar por aí a idéia de que nós somos frios, que a nossa profissão nos fazem rochas insensíveis sem coração. Mas não estamos sós. Outros profissionais precisam adquirir a segurança e calma necessária ao exercício do seu ofício. Cada um, claro, requer estas virtudes, resalvadas as devidas proporções. Vejam os médicos, por exemplo. Quando você está morrendo de dor todos parecem aquele personagem do insensível doutor do seriado “House” da Universal Channel. Li, recentemente, que neurocientistas da Universidade de Chicago descobriram que o cérebro dos médicos, quando observam pessoas com dor, bloqueiam as regiões responsáveis pela “compaixão” e ativam as ligadas ao autocontrole. Assim como eles, nós também aprendemos a nos distanciar do objeto para nos privar do estresse emocional que, invariavelmente, atrapalhariam o raciocínio.
Mas, havia um detalhe que fazia aquelas circunstâncias extraordinárias. Jeniffer era a mulher que eu amo e isso me tirava do eixo de concentração plena. Espero que eles não imaginem que isso acontecia comigo para não me temerem mais do que eu os temia.
Um carro prateado aproximou-se, lentamente, e parou alguns metros mais adiante. Engoli em seco e respirei fundo. Era hora de começar aquilo que eu esperava não demorar muito tempo para terminar.
O homem careca tinha a pele rosada por causa do sol e vestia um elegante terno azul e sapatos lustrados. Caminhou na minha direção e retirou um revólver do paletó. Manteve-o na mão direita encostado a perna para não chamar atenção dos que passavam na rodovia.
_Onde está a minha esposa? _ perguntei, quando ele parou à duas jardas de mim.
_Ela está aqui por perto. _ respondeu.
_Nada feito. _ falei pausadamente. _ Você me entrega a garota viva e eu te dou o dinheiro. Pronto, você segue seu caminho para lá e eu, para o lado oposto.
Ele tirou do bolso o telefone e discou.
_Alô? Passe o telefone para a garota. _ ele falou para seu comparsa e depois jogou o telefone no ar para que eu o pegasse.
Segurei o aparelho e o coloquei no ouvido.
_Jeni?
_Ruan, eu estou bem. _ ela respondeu e eu reconhecia seu tom de voz para não acreditar naquilo.
_Jeni, me diz alguma coisa que só eu saiba para ter certeza de que isso que estou ouvindo não é uma gravação.
_Eu te dei uma caixa com os sapatinhos do nosso filho.
_Certo. Alguém está com você?
_Tá.
_Fique calma, isso vai acabar. Eu te amo.
Tirei o telefone do ouvido e olhei para o homem.
_Você vai pedir para trazê-la aqui e eu lhe dou o dinheiro. Foi assim que nós combinamos.
Joguei o celular de volta e ele o pegou.
_ Já retorno para você. _ ele disse e depois desligou. _ Me dê a mala com o dinheiro que a garota será deixada em algum lugar aqui perto, você a encontrará.
_Acha que eu sou algum idiota?! _ perguntei-lhe.
_Não, mas sob a mira de uma arma, até os mais espertos se tornam otários. _ ele estendeu o braço e apontou a arma para a minha testa. _ Eu só preciso dar um furo na sua cabeça e pronto. Mas, não vamos sujar o asfalto de sangue. Você me entrega a mala e fica com a garota.
Senti a veia do meu pescoço pulando. Dei-lhe o que queria.
_Melhor assim. _ sorriu e caminhou para o carro.
Eu fiz o sinal com a mão quando ele virou-se para abrir a porta. Neste momento, ele foi surpreendido por seis homens que surgiram em todas as direções e formaram um círculo ao seu redor.
Aproximei-me e fiquei na sua frente:
_E sob a mira de todos esses fuzis você consegue ser esperto? Porque eles podem explodir a sua cabeça e fazer voar os seus miolos pelo ar. Então, pegue esse celular e mande trazer a minha mulher até aqui!
_Se atirarem em mim, ele vai ouvir e matar a sua garota.
_E se ele pensar que o tiro que você deu foi em mim? Nem vai ligar... _ ofertei-lhe esta possibilidade de raciocínio para confundi-lo e provocar sua insegurança. _ Eu quero a minha Jeniffer!
Ele apontou a arma para a própria cabeça e eu avancei sobre ele, soquei-lhe o rosto. Sua arma disparou para o alto e depois caiu no asfalto. Esmurrei-o com toda minha ira. Peguei-o pela gola da camisa:
_Eu quero você vivo, entendeu? Eu quero você bem espertinho até trazer a Jeni aqui!
_Vão me matar. Eu não passarei daqui. Não se pode falhar nas missões. _ disse-me rindo, enquanto seu nariz sangrava.
Ele não tinha mais nada a perder, mas eu tinha.
Ouvimos disparos à nossa direita vindos do matagal e eu olhei para os pássaros assustados que voaram dos galhos da árvore, onde já repousavam no cair da tarde.
_Cadê ela?! _ gritei e o sacudi.
_No meio do mato!
Larguei-o e ele foi algemado pelo policial. Os outros homens vieram comigo. Peguei o telefone celular do chão e redisquei para o último número. Alguém tinha que atender, mas nada, não obtive retorno.
_Jeni! _ começamos a gritar por toda parte.
_Achei! _ um homem gritou a dez metros a minha direita.
Corri em sua direção com toda velocidade e puxei todo o ar que meus pulmões pudessem suportar. Parei alguns metros antes dos dois corpos estirados no chão e eu senti que tudo congelara.
Jeni estava com a roupa ensopada de sangue. Tinha levado um tiro no ombro. O homem ao seu lado estava morto. Ela o matara! A arma pendia da sua mão. Provavelmente, lutara contra ele. Sua vida devia estar 100% em risco. O seu cabelo cobria seu rosto virado para o lado. Ela estava imóvel e eu senti que não ia suportar. Jeni era a mulher que eu tanto esperara para amar. Ela viera até mim da maneira mais inesperada. Seu padrasto pedira para eu protegê-la, mas não cumpri minha missão! Não consegui! Ajoelhei-me em sua frente.
_ Ai! Você não sabe fazer isso! _ ouvi o homem gritar com seu comparsa.
Eu apenas olhava de canto de olho quieta. Um deles chegara ferido com um corte na barriga e o outro fora comprar curativos. Acho que eles fizeram algum assalto que falhara, não entendi bem, pois cochichavam.
_Eu posso ajudar._ disse-lhes.
O que estava de costas para mim virou-se e me olhou. Acho que queria se certificar que era isso mesmo que tinha ouvido.
_É que eu entendo um pouco disso. Faço faculdade de enfermagem... _ expliquei-lhe.
Claro que estava ainda no primeiro semestre e aquilo não precisava de uma faculdade para se saber fazer, mas eu precisava de credibilidade entre eles.
_Então, levante-se. _ ele ordenou. _ Eu não quero ver nenhuma gracinha. _ apontou com o revólver para a direção do amigo escorado na mesa.
_Pode desamarrar as minhas mãos e meus pés? _ mostrei-lhe os pulsos.
_Anda logo que eu estou sangrando feito um porco! _ gritou o outro.
_Tudo bem. _ ele aceitou e liberou-me das cordas.
_É preciso limpar a região. Não tem álcool aqui, mas tem água... _ pensei alto e caminhei para a pia. Antes, fiz um sinal de que iria me deslocar. Eles estavam apreensivos demais com cada movimento que eu fazia. _ Vem aqui. _ pedi. _ Por favor!
Ele caminhou em minha direção e eu limpei o ferimento.
_Foi com algum objeto cortante? _ perguntei.
_Para que quer saber?
_Porque pode infeccionar. _ expliquei-lhe.
Voltamos para perto da mesa e eu abri o saco da farmácia onde estavam as gases e o esparadrapo. Deixei o saco aberto de modo que eu pudesse conferir o que procurava. Lá estava o número do telefone da farmácia estampado. Engoli em seco e limpei o ferimento. Decorei o prefixo repetindo a seqüência mentalmente.
_Eu tinha que levar uns pontos... _ opinou.
_Que isso, não é para tanto. _ ri, tentando ser o mais amigável possível. _ Agora deixa eu cortar o esparadrapo e colar aqui... _ falei baixinho e meus olhos se fixaram por alguns segundos no restante dos números.
_Agora volta para o seu lugar que eu não quero problemas com você, nem com esse teu filho aí. Quero acabar esse trabalho e pronto.
Ele me amarrou de novo e eu deitei. Meu plano era conseguir formar uma frase com palavras em que a quantidade de letras que significassem os números. Assim, Ruan teria noção de onde eu estava e localizaria o bairro. Mas nem tudo saíra como eu queria. Infelizmente, eles me surpreenderam. O ponto de encontro para pegar o dinheiro era em uma estrada deserta, fora da cidade, longe de tudo. Não adiantava eu passar-lhe aquele código porque, daqui a pouco, sairíamos dali. Tive tanto trabalho para nada!
Durante a ligação para Ruan, eles passaram todas as ordens e, por fim, chegou o momento de passarem o telefone para mim.
_Ruan, te amo. Nós somos dois em um, não esquece, dois em um! _ disse-lhe e dei um pouco de ênfase no dois.
Droga! Era só aquilo que eu podia indicar! Pelo menos Ruan teria idéia de que eram dois.
_Não se meta a trazer companhia, nem a inventar qualquer gracinha ou nós damos um tiro na nuca da sua lindinha.
Eu engoli em seco. Não podia entrar em pânico. Eu precisava confiar no Ruan.
Quando ouvi a voz de Jeni no telefone, meu coração doeu no peito. Eu não conseguia manter a frieza, nem a imparcialidade.
_ Ruan, confia em Cristo. Do mais alto dos céus ele vai abrir o mar como fez com Moisés! Eu te...”
Desligou.
Os policiais que estavam ouvindo tudo pelo viva-voz ficaram em silêncio por alguns segundos. Eu levei as mãos à cabeça e por fim sentei no sofá de casa.
_Eu vou arrumar o dinheiro. Eu quero a minha mulher e o meu filho de volta... _ disse-lhes.
_Ela é muito cristã? A minha também é... _ o investigador cruzou os braços.
_Não muito... _ disse-lhe e, de repente, me ocorreu que aquela frase de Jeni não era realmente típica. _ ... Peraí! Ela está mandando uma dica de onde está!
_Quê? _ Os dois homens me olharam com uma careta de incredulidade.
_O que ela disse mesmo? Do mais alto céus, Cristo alguma coisa... Abrir o mar... _ tentei me lembrar e senti que o nervosismo não estava deixando.
_Espere um pouco. _ o investigador levantou a mão em minha direção e fez um gesto para interromper minha euforia. _ Está me dizendo que sua mulher fala em códigos com você?!
_É. Eu ensinei a ela.
_Você ensinou a ela? _ ele repetiu.
Eu não perdi tempo, peguei o bloco de anotações ao lado do telefone e escrevi a frase.
_Quais são as variantes para Jesus? _ perguntei.
_Bom... _o policial realmente não estava dando crédito àquilo, mas não descartou a possibilidade. _... Jesus, filho de Deus, Senhor... Sei lá.
_Pois bem, Cristo pode ser Cristo Redentor. Mais alto dos céus... ela está em um lugar alto e o Cristo fica de frente para Baía de Guanabara! Por isso o mar!
_Mesmo assim ainda é vasto.
_Nós tínhamos o Rio de Janeiro inteiro, agora temos uma área menor! _ eu tentei pensar positivo.
_Sim, irá ajudar! Mas temos que investigar mais sobre eles.
_Acho que a mãe de Jeni pode saber. _ informei-lhes e forneci o nome dela para que pudessem buscar onde estava.
Não acredito que traria justamente Elisa para perto de mim. Mas, sob essas condições, eu faria tudo. Até me unir à Elisa.
Eles a contataram e Elisa realmente foi uma peça-chave na união de dados que nos levassem aos homens. Mas aquela era uma dura e longa espera. Nada poderia dar errado. Qualquer erro custaria a vida de Jeni.
Duas semanas se passaram e eu estava com o psicológico em frangalhos. A campainha não parava de tocar. Os amigos vinham me visitar e trazer palavras de conforto a todo instante.
Abri a porta para atender mais uma vez.
_Oi.
Era Elisa de mãos nos bolsos, cabelos presos em um coque e um sorriso de constrangimento.
_Oi. _ continuei parado na porta.
_Como está?_ perguntou.
_Pensei que tivesse voltado para...
_Não, vou ficar na casa de uma conhecida aqui até tudo se resolver. Quem sabe vocês não precisam de mim...
_Nesse caso, obrigado.
_Posso entrar?
_... _ pensei um pouco. Dei passagem. _... Entre.
Minha mãe que estava na porta da cozinha olhou-me de cara feia, mas eu fingi que não vi.
Elisa sentou-se no sofá e eu me mantive de pé.
_Eu sei o que está sentindo. _ ela falou.
_Não, não sabe. O que eu sinto é muito maior. _ falei-lhe com rancor.
_As mães têm uma ligação forte.
_Só agora sentiu isso? _ perguntei-lhe.
_Eu vim aqui em paz.
_Ok.
_Como o mundo dá voltas... _ ela levantou-se e caminhou em minha direção devagar, olhando para os próprios pés, parou na minha frente e ergueu os olhos. Tocou no meu peito. _ ... Eu sem querer estou sempre de volta à sua vida.
_Não está. _ segurei a sua mão e a tirei de mim. _ ... Você está na zona periférica. Porque o centro da minha vida agora é a Jeniffer.
_O que encontrou nela, Ruan?
_O que encontrei é justamente o que está faltando agora. O que faz ficar esse grande buraco. _ senti as lágrimas virem aos olhos. _ É o que está tirando o sentindo da minha vida. Eu não sei nomear objetivamente, mas posso provar o gosto amargo do que é não ter o que encontrei nela.
_ Bonito isso. Sentiu o mesmo por mim?
_ Senti a perda. Mas sobrevivi. Agora não sei se posso dizer o mesmo dessa vez, não sei se agüento perdê-la. Porque a Jeni é alguém por quem vale a pena viver!
_... _ ela abaixou os olhos.
_Eu não quero ser estúpido, mas... vai embora? _ pedi.
Ela engoliu em seco, virou as costas e fechou a porta atrás de si.
Minha mãe colocou a mão no meu ombro e eu sorri-lhe.
_Está tudo bem. _ caminhei até o quarto de Jeniffer e fiquei parado à porta.
O cheiro dela estava ali. Seu perfume impregnava o ar vindo das cortinas, da roupa de cama, quem sabe dos vestidos do guarda-roupa... ou era só o meu pensamento?
A gaveta entreaberta da escrivaninha chamou-me a atenção. Caminhei lentamente até ela e tentei fechar, mas não consegui. Abri-a para ver o que estava empatando cerrá-la. Era um caderno de capa dura vermelha. Empurrei-o para dentro e depois fechei a gaveta.
Coloquei as mãos de volta no bolso da calça e caminhei para a saída. Parei. Cocei a nuca, virei-me e olhei a gaveta ainda mais uma vez. Retornei. Sentei-me diante da escrivaninha e reabri. Puxei o caderno.
_ “Ruan, esse é o terceiro volume. Você nem imagina quanto ainda tenho a escrever...”
Parei de ler e olhei-me no reflexo do espelho na parede. Terceiro? Para mim que ela escrevia? Puxei a gaveta para fora e encontrei mais dois cadernos. Sorri e depois comecei a rir e terminei com lágrimas nos olhos. Levantei-me, fui até sua cama. Tirei os chinelos e deitei. Senti o seu perfume no travesseiro. Fechei os olhos por uns segundos e depois voltei a folhear os cadernos. Deixei a luz do abajur ligada.
_ “Ruan, eu comecei a escrever aqui neste caderno para lhe dar de presente um dia. Não é exatamente um fluxo contínuo de idéias. São coisas soltas na minha cabeça. Tudo para que você lembre de mim...”
Aquilo era o maior tesouro que eu podia achar.
_ “Já reparou como os passarinhos nos vêem através do vidro fumê da janela? Como pode? Eu tento ficar paradinha como uma estátua, mesmo assim eles percebem o menor movimento e se assustam. Agora estou sentada no quarto vendo nosso jardim.”
Olhei a janela e a imaginei ali no quarto de costas para mim, sentada à cadeira escrevendo. O cabelo preto liso caindo sobre suas costas. Os pequenos pés descalços. As pernas cruzadas.
_ “Um dia eu já fui um passarinho medroso. Selvagem. Voava para longe quando você se aproximava. Mas você me prendia pelos olhos. Quando me olha, põe minhas forças por terra. Não posso resistir. Eu sinto agora a sensação do nosso primeiro beijo. Você me quis tão apaixonadamente que até hoje estou sob o feitiço daquela porção mágica do amor. Só que você está longe e eu aqui sozinha te escrevendo...”
Que ironia. Agora aquelas palavras se tornavam reais. Ela é que estava longe e eu ali em seu quarto lendo suas palavras.
_ “Mas eu sei quando você chega pelo barulho do coturno no chão, da chave titilando sobre o vidro da mesa. Eu fecho os olhos e espero que você venha me beijar a nuca e o pescoço”.
Senti meus olhos pesarem, havia dias que eu não dormia direito. Abracei-me ao seu caderno e ficou apenas aquela cena na minha mente. A pele lisa dos seus ombros e minha boca beijando-a. Eu a quero de volta para mim.
Li Mendi (www.lianotacoes.blogspot.com) *de cara nova!*
_Você é uma boa garota! _ ouvi a voz masculina na direção do meu nariz, podia sentir seu hálito quente. Mas não conseguia vê-lo por causa do capus preto que colocaram na minha cabeça. _ Não se preocupe que nada irá te acontecer e a Zilma vai cuidar de você. _ disse-me.
Senti muito calor e depois uma ventilação, deveria haver alguma entrada de ar à minha esquerda. Depois, ouvi o barulho da porta batendo. O vento sumiu e agora estava tudo em silêncio. Meu coração começou a acelerar conforme eu ouvia o arrastar de um chinelo se aproximando de mim. Encolhi minhas pernas para debaixo da cadeira.
_Está grávida de quantos meses? _ perguntou a voz feminina, parecia jovem.
Não respondi. Fiquei quieta, com o corpo muito tenso. Pensei no meu filho. Ele era parte de mim e estava sentindo tudo. Isso era muito ruim. Lembrei do que Ruan me aconselhara. Era preciso buscar o alto-controle. Respirei fundo e soltei devagar o ar dos meus pulmões.
_Meu filho... _ pensei na minha voz interior e comecei a conversar com meu bebê. _ ...está tudo bem. Não precisa ficar com medo. A mamãe está aqui contigo. Seu pai virá nos buscar. Ninguém fará mal nenhum a você. Está gostoso aí dentro? Quentinho e protegido? Então, quero que durma e descanse.
Senti uma mão na minha nuca e assustei-me.
_Calma, garota. _ ouvi um riso. _ Acho que pode respirar melhor assim. _ ela tirou o meu capus e a luz irritou os meus olhos já vendados por umas quatro horas.
Era um pequeno quarto de paredes de tijolos. Uma janela de madeira azul e o teto de telhas de zinco. Uma lâmpada estava pendurada por um fio e algumas mariposas rondavam ao seu redor. Os únicos móveis dali eram um fogão de quatro bocas com a porta preta, uma pia de alumínio e um sofá velho marrom de três lugares, já saindo o estofado pelo tecido puído. Além disso, só a minha cadeira onde eu estava sentada.
Na minha frente, uma mulher de cabelos desgrenhados fumava cigarro e fazia crochê. Como ela podia ter a paciência e tranqüilidade de enlaçar aquela fina linha ao redor da agulha para fazer uma toalha de mesa? Ao seu lado, dois revólveres. Era quase uma ironia a cena. O pano já grande sobre suas pernas me fez me perguntar se antes de mim houvera outra pessoa ali naquela cadeira vendo-a dar os primeiros pontos.
A mulher usava uma blusa que lhe deixava a barriga cheia de estrias aparecendo por cima da bermuda jeans apertada.
_Eu preciso fazer xixi. _ falei-lhe.
_Tem um banheiro ali. _ Apontou para uma porta à minha direita. _ Não ouse qualquer coisa, porque senão eu te mostro o como sei usar esses brinquedinhos aqui!
Ela suspirou, deixou o pano no sofá e veio até a minha direção. Desamarrou as minhas mãos e voltou ao seu lugar.
_E os meus pés? _ perguntei.
_Você consegue.
Eu pensei em pular, mas poderia me desequilibrar e cair. Movi meus pés centímetro por centímetro à frente e levei quase cinco minutos para chegar até a porta. Senti as lágrimas virem aos olhos. Era uma pressão psicológica maior do que eu podia suportar.
_Deus, me tire viva dessa. Salve a mim e ao bebê. _ sequei o rosto com as costas das mãos.
Antes de voltar, eu reparei que no banheiro havia um pequeno basculante. Olhei pela fresta da porta e reparei que a mulher estava entretida em seu bordado. Aproximei-me mais e fiquei na ponta do pé. Tudo que pude ver foi... Nossa! É o Cristo, o Cristo Redentor! E eu estou em um lugar alto. O cheiro de maresia era forte.
_Cadê você?! _ ouvi a voz dela se aproximando.
A mulher abriu a porta e deu de cara comigo. Olhou-me de cima abaixo.
_Volte para o seu lugar. O patrão não vai gostar de saber que está solta.
Amarrou minhas mãos novamente.
_Eu estou com muitas câimbras. _ reclamei. _ Meus pés estão inchando. Eu poderia deitar no sofá?
Ela olhou-me longamente. Respirou fundo de novo.
_Tudo bem. Vem... _ fez um sinal com a mão.
Deitei-me no sofá. Fechei os olhos e pensei em Ruan. No seu sorriso lindo. Seu corpo musculoso que formava lindas entradas na cintura. Ele parado na porta do banheiro, com a cabeça encostada, observando-me tomar banho. Depois, beijando minha barriga ainda molhada e conversando com nosso filho.
As lágrimas escorreram pelos meus olhos. Ele viria me buscar. Eu sabia que podia confiar nele. Toquei com os dedos de uma mão a aliança na outra.
Os bandidos chegaram e pude vê-los agora que eu estava sem capus. Rapidamente desviei o olhar. Não era para encará-los, conforme Ruan me instruíra.
Eram os mesmo homens que arrombaram a porta da minha casa. Eles verificaram se eu estava bem presa e um deles fez uma ligação no celular. Ouvi a voz de Ruan pelo viva-voz.
Meu coração veio na boca. Aquele som era tudo que eu precisava.
_A dívida é de quanto? _ Ruan perguntou.
_50 mil. _ o homem tatuado e sem camisa aproximou o celular da boca.
_Certo. Mas eu vou precisar de alguns dias para conseguir o dinheiro.
_Quanto mais tempo demorar, mais tempo a gente fica com sua garota.
_Esse é um acordo, certo? Então, eu quero garantias também. Ponha ela na linha.
_Você não me deu nada! Por que eu tenho que te dar garantias?
_Você quer o dinheiro que está comigo, certo? Mas eu só posso dar se souber que o que importa para mim, e está com você, está bem.
O homem olhou-me por uns segundos.
_Ok.
Ele levantou-se e veio na minha direção. Aproximou o celular da minha boca.
_Ruan, confia em Cristo. Do mais alto dos céus ele vai abrir o mar como fez com Moisés! Eu te...
Antes que pudesse dizer “...amo”, o homem voltou-se para a cadeira:
_Tocante vocês dois! Emocionado agora?!_ desligou na cara de Ruan.
Fechei os olhos e mentalizei com toda força para que Ruan tivesse ouvido minha mensagem claramente.
Na vida temos que tomar decisões. E decisões mudam todo o seu destino. O mais difícil é escolher o melhor caminho em uma fração de segundos, de dias. Uma história pode se alterar com apenas um gesto, uma palavra. Ou o não-gesto e a não-palavra. A própria ausência de qualquer atitude inverte a sucessão das coisas.
Eu precisava saber o que estava acontecendo para me preparar. Não queria que ninguém chegasse perto de Jeni. Pois eu estava disposto a perder tudo, até a minha própria vida, mas não a da mulher que amo.
A resposta para todas as dúvidas começou a chegar no telefonema que recebi. Virgínia estava morta, mas alguém tinha seu aparelho e encontrara meu número.
_Alô?
_Alô, Ruan. _ uma voz masculina falou do outro lado.
_Quem é?
_Quem é não importa muito, mas o que eu quero.
_E o que você quer? _ perguntei.
_Eu quero saber se está disposto a enterrar o álbum de figurinhas que lhe enviamos pelo correio. _ ele riu do outro lado.
Instantaneamente, eu pensei que poderia ser alguém mais próximo a mim, mas depois abandonei a idéia, ainda estava cismado com a ligação de Virgínia naquele novelo de suposições.
_Por que isso? _ perguntei.
_Você sabe que o seu sogro deixou uma dívida não é...?
_Meu sogro? Que sogro?
_Ruan, não se faça de desentendido. Você é bem espertinho.
_E o que eu tenho a ver com isso?
_Bom, sabe como é, depois da morte as coisas boas se passam pela herança e as dívidas, também.
_Por que as fotos?
_É só uma garantia. Afinal, sua reputação deve valer quase o preço que precisa pagar para estarmos quites.
_E se eu não quiser pagar?
_Bom, acho que isso aqui fará um bom estrago espalhado por aí.
_Eu não vou aceitar ameaças!
_Mas não precisa ficar nervoso. Basta entrarmos em um acordo.
_Soube que a Virgínia está morta. A vida dela foi o preço dessas fotos? Mataram ela para conseguir coisas sobre mim?
_Ah! Eu não costumo revelar o meu Know-How. Ela deu muito trabalho. O que não vai ser o seu caso, vai?
_Eu não estou nem aí para o que vá fazer com as fotos!
_Como quiser, senhor Ruan. _ desligou.
Franzi a testa e olhei para o aparelho em minha mão.
_Quem era, Ruan? _ Jeni perguntou.
_Eram os agiotas, eles querem o dinheiro que seu padrasto devia. Tem noção de quanto era?
_Não sei, talvez muito...
_Está tudo ok, Jeni. _ abracei-a. _ Eu vou à polícia, vou contar tudo que aconteceu, tudo bem?
_E eu? Estou com medo.
_Eu vou pedir para alguma vizinha te acompanhar na aula de hidroginástica. Você vai relaxar, esquecer tudo que está acontecendo e...
_Ruan! A única criança aqui é a que está na minha barriga. Eu não vou conseguir esquecer!
_... _ suspirei. _ Ouça. Eu quero acreditar com todas as minhas forças que nunca vai precisar disso... _ abri o armário da cozinha.
_O que está procurando, Ruan?!
_Preste atenção no que eu vou te falar. _ peguei a arma que guardava na caixa com cadeado numerado.
_Eu não vou usar isto.
_Não! Você não vai, ok? Mas precisa saber.
_Ruan...
_Está tudo bem. _ beijei-a nos lábios. _ Você a segura assim... _ expliquei-lhe rapidamente os procedimentos que deveria tomar. _ Mesmo sabendo de tudo isso, só a use em último caso! Quando sua vida estiver de fato em um risco de quase 100%. Se alguém se aproximar de você, não reaja! Não reaja!
_Tudo bem... _ ela engoliu em seco.
_Não olhe nos olhos para que eles não se sintam amedrontados. Fique calada, só responda o que perguntarem. Tente conter-se o máximo que puder. Controle! Controle! Respire essa palavra.
_Certo.
_Se eles usarem algum tipo de ligação e te colocarem na linha, você terá alguns segundos apenas para me passar dados importantes. Use códigos, coisas que só eu vou entender.
_Do jeito que está falando, está prevendo tudo...!
_Não, é só parte dos treinamentos. Eu só estou tentando te passar o mais vital.
_Eu só quero ficar bem, em paz, não quero treinar nada.
_Tudo bem. _ abracei-a com carinho.
Eu precisava acionar a polícia. Pedi que Jeni ficasse em casa com uma vizinha. Mas os dias se passaram e não tivemos mais retorno de nada. Ela precisava voltar à sua rotina e eu sabia que não estava acabado, que algo estava prestes a acontecer.
Foi quando o meu telefone tocou no meio do almoço e eu reconheci aquele número.
_Alô?
_Ruan?
_Quem é?
_Reconhece essa voz? _ a voz masculina foi substituída pela de Jeni. _ Ruan...
_Não...
_Já que as fotos não foram uma garantia segura, agora temos a garantia viva.
Desligou.
Eu senti a ira subir por todo o meu corpo. Bati com os punhos fechados na mesa: